Cap. 25
‘Você devia ter me acordado ontem’ Arthur repetiu quando estacionou na frente do colégio. Lua abanou a mão, saindo do carro.
‘Esquece isso, Arthur’ disse. Ele bateu a porta e foi atrás dela.
‘Mas você devia, nem que fosse pra me mandar ir pra cama. Minhas costas estão me matando’ ele reclamou mexendo o pescoço. Ela riu.
‘Depois eu faço uma massagem, tá bom assim?’ perguntou. Arthur sorriu malandro.
‘Gostei da idéia’ disse. Lua deu um tapinha nele.
‘Cala a boca’ disse balançando a cabeça enquanto o menino ria. Sophia chegou correndo perto dos dois.
‘Ué, o Micael não veio com vocês?’ perguntou com a testa franzida.
‘Bom dia pra você também, Abraao’ Arthur sorriu. Sophia rolou os olhos.
‘Bom dia, bom dia. Mas e o Micael?’
‘Ele ligou pro Arthur hoje de manhã e disse que não viria no colégio’ Lua contou ‘Parece que pegou gripe ou coisa do tipo’
‘Deve ter ficado muito no sereno ontem’ Arthur comentou. Sophia corou levemente, fazendo os dois rirem.
‘Eu não tenho culpa. Foi ele quem quis passear no parque depois de tomar café’ ela disse naturalmente.
‘Pelo jeito vocês ficaram até bem tarde na rua’ Lua disse e de repente apontou pra prima ‘Ahá! Então foi por isso que você me ligou ontem às três da madrugada’
‘Ela te ligou?’ Arthur perguntou olhando pra Lua, com a testa franzida.
‘Ligou. Por que acha que eu acordei?’
‘Aliás, isso me lembra uma coisa’ Sophia segurou no braço da prima ‘Nós temos que conversar’
‘Acho que vejo vocês mais tarde’ Arthur riu e deu um beijo na bochecha de Lua antes de se afastar das duas e ir até Chay e Rodrigo, que estavam sentados na mureta do pátio. Sophia arrastou a prima até uma mesinha vazia. Lua viu Ana e Mel sentadas numa outra mesinha e apenas acenou pra elas, antes de se sentar de frente pra prima.
‘Certo, vamos aos fatos’ Sophia disse.
‘O que quer saber?’ Lua perguntou entediada, já sabendo o que ouviria em resposta.
‘Quero saber o mesmo que queria ontem. Vamos, me diga’ Sophia arqueou uma sobrancelha ‘o que estava fazendo na casa do Aguiar ontem?’
‘Eu encontrei com o Arthur no mercado e ele me convidou pra jantar na casa dele, nada demais’ Lua disse com simplicidade. Sophia bufou.
‘Nada demais, aham’ resmungou pra si mesma ‘Certo, certo. Vocês jantaram mesmo?’
‘Macarrão instantâneo, se quer saber’ Lua riu.
‘E depois?’
‘Terminamos de assistir Friends e começamos a jogar vídeo-game. Mortal Kombat, pra ser mais precisa’ ela contou ainda se divertindo com o interrogatório que a prima estava fazendo ‘Eu venci todas as partidas, até a que ele tentou roubar’
‘Ele tentou roubar em Mortal Kombat?’ Sophia franziu a testa. Lua concordou.
‘Tentou. Ele tirou o controle de mim. Eu fiquei indignada e pulei em cima dele’
‘Pulou???’ Sophia arregalou os olhos.
‘Pulei e comecei a bater nele. Então ele foi pra cima de mim, me fazendo cócegas’ Lua contava vendo a prima arregalar os olhos mais e mais ‘Quando ele parou, eu recuperei o controle e ainda ganhei a luta do vídeo-game. Depois a gente dormiu no chão da sala’ terminou erguendo os ombros.Sophia estava de boca aberta e balançou a cabeça.
‘Concordo que não houve nada de anormal. Você falando assim parece que realmente foi só uma noite inocente de vídeo-game e macarrão instantâneo que dois amigos passaram juntos, mas... você não acha que essa sua aproximação com o Aguiar está indo longe demais?’ perguntou titubeante ‘Digo, depois de vocês terem se beijado e tudo mais’
‘Tudo mais o quê?’ Lua franziu a testa ‘Cacete Sophia, não aconteceu nada. Quantas vezes eu vou ter que repetir que o Arthur é como um irmão pra mim?!’
‘Ih, tá bom, tá bom’ Sophia levantou as mãos ‘Não precisa ficar nervosa. Se você diz que é só isso que sente por ele, eu acredito’
‘Melhor assim’ Lua bufou e cruzou os braços em cima da mesinha. O sinal do colégio tocou e as duas levantaram, indo pra sala de aula ‘Agora me conta, como foi seu passeio com o Micael?’ perguntou. Sophia abriu um sorriso tão largo que Lua acabou rindo da cara de boba apaixonada da prima.
‘Cara, fala baixo. Você vai me deixar surdo com essa gritaria’ Arthur ria trancado dentro de uma cabine no banheiro masculino. Ele tinha pedido pra ir ao banheiro na segunda aula pra poder ligar pra Micael e contar o que havia acontecido na noite anterior.
‘Como você quer que eu fale baixo? Você me conta que a menina dormiu na sua casa e não quer que eu expresse minha empolgação?’ Micael disse, diminuindo um pouco a voz anasalada por causa do resfriado.
‘Não tem porque se empolgar tanto, não aconteceu nada demais. Nós só passamos um tempo a mais juntos’ Arthur disse simplesmente.
‘Bem, ao menos ela não está te evitando ou coisa do tipo, não é?’
‘Ah, com certeza não. Ela agiu naturalmente ontem, como sempre’ Arthur suspirou ‘Mas, você sabe, ela está seguindo aquele lance de “somos amigos acima de tudo” e tal’
‘Seguinte dude, não reclama’ Micael riu ‘Sério, você está se aproximando cada vez mais dela. Mesmo que seja apenas como um amigo, já é um ponto positivo. E ela não está fugindo nem nada, outro ponto positivo. O negócio é continuar assim e ela vai acabar se tocando que você sente algo diferente’
‘Você acha?’ Arthur perguntou nervoso, passando a mão pelos cabelos.
‘Claro’ Micael afirmou e espirrou. Os dois riram ‘Foi mal cara. Enfim, ela não é boba, uma hora ou outra ela tem que sacar os seus sentimentos reais’
‘Ah, não sei, não sei. Não seria melhor eu contar tudo de uma vez por todas?’ Arthur perguntou incerto.
‘Olha cara, se ela sentir a mesma coisa que você, isso vai ser ótimo, mesmo. Mas, se ela não puder corresponder, isso vai acabar com a amizade de vocês e você vai acabar perdendo a chance de ficar ao lado dela nem que seja apenas como amigo. É bom pensar bem antes de fazer qualquer coisa do gênero’
‘É, você tem razão, mesmo porque eu não acho que ela vá corresponder. Ah cara, que saco! Por que as coisas não podem ser mais fáceis?’
‘Relaxa dude, e pensa que um dia você ainda vai conseguir ficar com a Lua. Pode demorar o quanto for, mas você vai conseguir. Veja o meu caso! Demorou seis anos, mas finalmente eu posso ficar com a garota de quem eu sempre gostei’ Micael disse sorrindo. Arthur riu.
‘Você tem sorte, muita sorte, pode acreditar’ ele olhou no relógio e saiu da cabine ‘Olha Borges, eu tenho que desligar agora. Já faz quase quinze minutos que eu saí da sala, todo mundo deve estar pensando que eu estou com disenteria ou coisa do tipo’ e os dois riram ‘Depois eu dou uma passada aí, ok?’
‘Certo cara, vai lá. Até mais tarde’
‘Até’ Arthur guardou o celular no bolso da calça, ajeitou os cabelos na frente do espelho e saiu do banheiro.
‘Dá pra calar a boca e parar quieto?’ Lua perguntou rindo.
‘Tá doendo!’ Arthur reclamou encolhendo os ombros e fazendo careta. Ela deu um tapa no braço dele e o garoto voltou com os ombros na posição normal.
‘Eu sei, mas você precisa ficar quieto pra melhorar’ ela disse apertando os ombros dele. Arthur estava sentado numa mesinha do pátio e Lua estava em pé atrás dele, tentando aliviar sua dor nas costas, o que estava difícil visto que ele não parava de resmungar e se mexer.
‘Isso é culpa sua’ ele disse emburrado.
‘Repete isso e eu quebro você inteirinho’ ela ameaçou apertando os ombros dele com mais força.
‘AI! Tá, eu juro que fico calado, mas vai com calma aí’ ele pediu fazendo a garota rir.
‘Isso está romântico’ Mel comentou rindo, voltando da cantina com os outros. Lua deu um sorrisinho sem graça, olhando torto pra amiga.
‘E aí, Lua’ Chay cutucou a garota com o cotovelo ‘tem como fazer uma dessas em mim?’
‘Deixa de ser folgado’ Lua disse enquanto os outros riam.
‘Hum, então a mordomia aí é só pro Aguiar é?’ Rodrigo cruzou os braços. Ana deu uma risadinha.
‘Ou vocês param de gracinhas’ Lua olhou feio pra todos eles, exceto pra Sophia que também não parecia contente com a brincadeira dos outros ‘ou vão ser obrigados a ouvir o Arthur reclamar de dor pelo resto da vida, porque eu vou acabar com as costas dele’
‘Pô gente, colabora aí né!’ Arthur protestou e todos riram.
‘Mudando de assunto’ Sophia disse antes que alguém fizesse mais alguma piadinha ‘O que vão fazer nas...’
‘Lua!’ um grito meio nervoso interrompeu Sophia e Duncan se aproximou da mesinha, sob o olhar de todos ‘Lua, o que está fazendo?’ ele perguntou com os braços cruzados, olhando pra garota.
‘Conversando com os meus amigos?’ Lua disse ironicamente. Arthur prendeu uma risada.
‘Eu sei. Me refiro a isso’ Duncan apontou pras mãos de Lua, que ainda estavam sobre os ombros de Arthur.
‘Ah, Arthur está com dor nas costas’ ela respondeu muito calma ‘Por quê? Algum problema?’
‘Hum, sei. E será que nós podemos conversar?’
‘Claro’ ela cruzou os braços, encostando de lado na cadeira de Arthur. Rodrigo, Chay, Mel e Ana se entreolharam e saíram de perto rapidamente.Sophia e Arthur continuaram onde estavam. Duncan olhou feio pra eles e voltou a encarar Lua.
‘Eu pensei que nós estávamos juntos’ ele disse num tom meio chateado, meio irritado. Arthur olhou de esguelha pra Lua, que estreitou os olhos.
‘Bem, talvez nós estivéssemos, isso se você não tivesse me ignorado durante cinco dias’ ela disse.
‘Eu estava com os meus amigos! Você podia ter ido falar comigo’
‘Eu também estava com os meus amigos’ ela concordou com a cabeça ‘e acho que foi exatamente por isso que você não foi falar comigo’
‘É, talvez tenha sido por isso’ ele admitiu a contra gosto. Arthur se mexeu na cadeira, desconfortável ‘E por que você não foi falar comigo?’
‘Bem, pelo visto você não gosta mesmo dos meus amigos. Pois então, já pensou na possibilidade de eu não gostar dos seus?’ ela arqueou uma sobrancelha. Duncan arregalou os olhos.
‘Mas... por que você não gosta dos meus amigos?’
‘E por que você não gosta dos meus?’ ela franziu a testa. Duncan abriu e fechou a boca duas vezes, sem resposta. Lua balançou a cabeça, impaciente ‘Se você quer mesmo ficar comigo, vai ter que aprender conviver com os meus amigos, então eu também vou aprender a conviver com os seus, numa boa. É assim que as coisas funcionam, Duncan’
‘Hunf... depois a gente conversa’ ele disse por fim e saiu de perto, voltando pro canto do pátio onde estava com o resto do time de futebol.
‘É, depois que você procurar um médico da cabeça e resolver seus problemas mentais’ Arthur soltou o comentário. Lua o encarou seriamente e ele sorriu sem graça ‘Erm, desculpe’ encolheu os ombros. Ela riu.
‘Não tem problema’ ela disse simplesmente ‘Acho que ele precisa mesmo de um médico da cabeça’
‘Fala sério, qual o problema em conviver comigo e com os caras?’ Arthur perguntou com a testa franzida ‘A gente fede por acaso?’ e os três riram.
‘Nem todo mundo consegue se adaptar a pequenas mudanças tão rapidamente’ Sophia disse ‘Por exemplo, muita gente daqui do colégio ainda não se acostumou com o fato de que nós, meninas, estamos andando com vocês agora’
‘Poxa, mas nós nem somos mais tããão perdedores assim’ ele encolheu os ombros ‘Bem, pelo menos as pessoas nos tratam melhor do que antes. Isso graças aos shows, claro’
‘Provavelmente boa parte dos alunos deve pensar que nós estamos andando com vocês em busca de mais popularidade ou coisa do tipo’ Lua disse rolando os olhos.
‘O que é mentira, visto que vocês não precisam de mais popularidade’
‘Eu preciso’ Lua apontou pra si mesma e riu ‘Não que eu faça questão, claro, mas eu não sou uma das mais queridinhas do colégio. Sophia e as outras é que são’
‘Você anda com a gente, claro que é uma das queridinhas’ Sophia disse. Lua negou.
‘Não sou não’
‘E por que não?’
‘Porque eu me misturei com os meninos primeiro’ Lua respondeu encolhendo os ombros.
‘Não diga isso. Não me deixe ficar com a sensação de ter acabado com a vida social de alguém’ Arthur disse se fazendo ofendido e os três riram.



















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