Cap. 23
‘ACIDENTE DE PERCURSO?’ Sophia berrava de nervosismo. Lua se encolheu no sofá da casa da prima ‘UM PEQUENO ACIDENTE DE PERCURSO?’
‘Pelo amor de Deus, não faça escândalo’ Lua pediu fazendo gestos com as mãos. Era domingo à tarde e ela resolvera passar na casa de Sophia, já que não tinha nada pra fazer no apartamento e a prima estava sozinha.
‘Ah cara, você ficou com o Arthur. Onde você estava com a cabeça quando fez isso?’ Sophia sentou no sofá, passando a mão na testa. Lua bufou indignada.
‘Olha quem fala! Eu fiquei com o Arthur, mas e você?’ perguntou estreitando os olhos. Sophia olhou espantada pra ela.
‘Eu o quê?’
‘E ainda por cima dá uma de cínica’ Lua atirou uma almofada na prima e riu nervosa ‘Você ficou com o Micael!’
‘O queeeeeee? Eeeeeeeu?’ Sophia segurou a almofada e apontou pra si mesma.
‘Ah, cala a boca!’ Lua abanou a mão ‘Você pensa que me engana? Eu sei que você ficou com o Borges ontem, no Gas’
‘Ele... ele contou?’ Sophia perguntou mordendo a boca. Lua desatou a rir.
‘AHÁ! Eu tinha certeza! CER-TE-ZA!’
‘Tá, tá bem, eu fiquei com ele. Feliz?’
‘Quem tem que estar feliz é você, não eu. Venhamos e convenhamos, o Micael é classe A’ Lua riu e cruzou as pernas em cima do sofá ‘E então, como foi?’
‘Maravilhoso’ Sophia disse com os olhos brilhando ‘Ele é realmente uma graça’
‘Óbvio, ainda mais estando com você, de quem ele gosta há não sei quantos anos’
‘Você sabia disso???’ Sophia jogou a almofada na prima, que deu uma risadinha ‘Sua danada, sabia e não me disse nada!’
‘Foi Arthur quem me contou, e eu prometi ficar calada’ Lua explicou ‘Aliás, eu nem deveria ter contado pra você que fiquei com o Arthur ontem, até porque pedi pra ele não contar pra ninguém’ ela coçou a cabeça, meio desapontada consigo mesma, e encarou a prima seriamente ‘então trate de fingir que não sabe de nada, ok?!’
‘Minha boca é um túmulo, mas agora, voltando ao assunto’ Sophia começou ‘O que você vai fazer em relação ao Arthur?’
‘Hum, nada?’ Lua arqueou uma sobrancelha, irônica.
‘Como assim nada?’ a prima perguntou exasperada ‘Vai simplesmente fingir que nada aconteceu, é isso?’
‘Não, bom... quase isso. Eu sei que aconteceu, ele sabe, é o suficiente. Ninguém mais precisa saber’ Lua riu de si mesma ‘bom, ninguém além de você, pra quem eu fofoquei agora. Mas, enfim, vai ficar por isso mesmo. Eu e ele vamos continuar sendo amigos, numa boa, como se realmente nada tivesse acontecido’
‘Você acha que vai conseguir manter a amizade com ele numa boa?’
‘Sinceramente? Acho que sim. É como eu já tinha te dito uma vez, eu considero o Arthur como um melhor amigo, quase como um irmão’
‘Por acaso, se você tivesse um irmão, ficaria com ele como ficou com o Arthur?’ Sophia arqueou uma sobrancelha. Lua pôs a língua pra fora.
‘Claro que não, e não finja que não me entendeu. O que eu quero dizer com isso é que meu sentimento por ele é uma coisa mais fraternal e que não passa disso. O beijo foi o que eu disse que foi, um pequeno acidente de percurso’
‘Ok, ok. Mas agora me conta, o que você sentiu quando ficou com ele?’ Sophia perguntou se empertigando no sofá. Lua se mexeu meio desconfortável.
Não tinha parado pra pensar no que sentira ao beijar Arthur até porque não achou que sentira nada anormal... A não ser pelos calafrios e tremores nas pernas, mas isso não era nada demais. Era?
‘Lua?’ a prima a chamou, vendo que ela demorava pra responder ‘E então?’
‘Ah, sei lá Sophia. Não senti nada demais’ Lua encolheu os ombros. ‘Tem certeza?’
‘É claro que tenho. Tô falando, foi normal’ garantiu rapidamente. Sophia assentiu com a cabeça.
‘Certo, certo. E, hum, ele beija bem?’ perguntou fazendo uma clássica cara de curiosa. Lua riu e tentou mudar de assunto, começando a especular sobre Micael e a prima. Vendo que não arrancaria mais nenhuma informação da prima, Sophia decidiu contar por completo como passou sua noite de sábado ao lado de Micael.
‘Foi isso cara’ Micael voltou pra sala do apartamento, entregando uma latinha de Coca-Cola pra Arthur, que estava sentado num dos sofás ‘Eu e ela ficamos até às três da manhã no Gas’ concluiu se esparramando na poltrona.
‘Você é um cara de sorte, meu amigo’ Arthur abriu a latinha e tomou um gole do refrigerante ‘Finalmente conseguiu ficar com a garota que ama. Deve estar se sentindo o cara mais feliz do mundo’
‘Ah, nem tanto. Eu serei o cara mais feliz do mundo se puder continuar com a Sophia’ Micael sorriu idiotamente ao se imaginar namorando a garota e bebeu um gole do seu próprio refrigerante. Olhou pra Arthur, que fitava os joelhos ‘Mas e você, cara? Veio pra cá porque disse que precisava conversar com alguém. Qual o problema?’
‘Lua’ o outro respondeu suspirando. Micael balançou a cabeça.
‘O que houve? Você resolveu se declarar e ela te bateu, foi isso? Ou ela te bateu mesmo sem você se declarar?’
‘Eu a beijei’ Arthur disse simplesmente e sorriu de uma forma mais idiota do que Micael fizera antes.
‘O QUÊ?’ o amigo arregalou os olhos e sentou direito na poltrona, espantado com o que acabara de ouvir ‘Você a beijou? Como assim?’
‘Não vai me dizer que não sabe como se faz isso’ Arthur olhou pra Micael e os dois riram.
‘Ah cara, você me entendeu. Quero saber como foi’
‘Foi... do nada’ Arthur disse franzindo a testa ‘mas foi incrível’ e sorriu.
‘Deve ter sido mesmo, pra você estar com essa cara de bobo aí’ Micael riu ‘Mas e aí? Ela não te bateu depois não?’
‘Cara, você quer que ela me bata, não quer?’ e eles riram ‘Não, ela não me bateu. Na verdade eu meio que deixei por conta dela. Fui dando umas indiretas, sabe como é, e depois meio que cheguei junto’
‘E aí?’ Micael perguntou ansioso.
‘Ela disse que não era pra eu fazer nada, que nós éramos amigos e que não era certo’ Arthur sorriu ao lembrar da expressão da menina ‘Eu cheguei mais perto dela e disse que discordava mas que era ela quem decidia. Ela simplesmente fechou os olhos e encostou a boca na minha. Eu deixei tudo assim por um tempo até que não agüentei mais e beijei ela’
‘Quanta pressão, cara’ o outro disse rindo ‘Por que você não a beijou de uma vez?’
‘Eu gosto de verdade dela Micael, gosto muito. E por isso mesmo não quero forçá-la a nada, entende? Se for pra acontecer, que seja naturalmente’
‘Isso foi lindo’ Micael zombou fingindo-se emocionado. Arthur sacudiu os ombros.
‘Pode zoar cara, eu não ligo. Eu sei o que se passou comigo e posso dizer, nas suas palavras, que foi lindo’ e os dois riram.
‘Mas e agora, dude? O que acha que vai acontecer?’ Micael perguntou.
‘Eu ainda não sei, na verdade’ Arthur balançou a cabeça ‘Lua disse que nós devemos seguir nossa vida normalmente, porque nós somos amigos e nada pode mudar isso’
‘Enfim, o que ela quis dizer foi que vai ignorar o que aconteceu e continuar sendo somente sua amiga’ Micael concluiu tomando um gole de Coca.Arthur concordou.
‘É, eu também entendi isso. Apesar de ela ter dito que não vai fingir que nada aconteceu, eu acho que ela vai. Até porque ela me pediu pra não comentar nada com ninguém, portanto finja que eu não te contei nada. E também não conte isso pra mais ninguém, nem pros outros caras’
‘Certo, certo, pode deixar. Então, no fim das contas, vai continuar tudo na mesma?’
‘Parece que sim’ Arthur encolheu os ombros e bebeu um pouco do refrigerante ‘pelo menos da parte dela. Agora, quanto a mim, bem, você deve imaginar’
‘Vai continuar investindo nela, não é?’ Micael perguntou e viu o amigo afirmar com a cabeça ‘Está certo, dude. Não pode desistir fácil não. Vê o que aconteceu comigo? Depois de seis anos a garota da minha vida finalmente me deu uma chance’
‘Sinceramente Micael, eu não quero esperar seis anos pra ficar com a Lua. Eu admiro a sua persistência cara, mas eu já tive a Lua uma vez, ontem, e não pretendo esperar seis anos pra ter de novo’ Arthur disse firme.
‘Mas, desculpe perguntar, e se ela resolver ficar com o tal Duncan? Mesmo depois disso’
‘Bem, quanto a isso eu não vou ter muito que fazer, mas eu sou capaz de garantir que Duncan não vai ficar com ela por muito tempo caso isso aconteça’
‘Hum, é, parece que não mesmo’ Micael riu ‘Cara, mudando de assunto, você acha que eu devo ligar pra Sophia?’ ele perguntou meio constrangido.Arthur riu.
‘Liga, dude. Convida ela pra sair. Hoje tá frio, mas nada que um café não resolva’ disse e sorriu maroto ‘Bom, um café e uns beijos, claro’
Micael concordou rindo e foi até a mesinha do telefone, puxando na agenda do celular o número que Sophia tinha passado pra ele ontem. Arthur ficou olhando pra Micael enquanto ele esperava alguém atender do outro lado. Sentiu uma pontinha de inveja do amigo. Por que as coisas com Lua não poderiam ter sido como foram com Micael e Sophia? Eles simplesmente poderiam estar juntos agora.
‘Alô. Sophia?’ Micael perguntou quando pareceram finalmente atender. Arthur viu o amigo sorrir ‘Bem e você? Aaah, eu também estava’ e sentou no braço do sofá, passando a mão pelos cabelos. Arthur bebeu um gole do refrigerante ‘Olha, estava pensando, quer tomar um café comigo? O carro do meu pai está aqui, eu posso te buscar... hum, quinze minutos?’ ele olhou pra Arthur, que riu e levantou do sofá, deixando a latinha de Coca sobre a mesinha de centro. Micael sorriu fazendo positivo pro amigo ‘Vou pegar um casaco e já estou indo praí. É, acho que preciso. Uhum, certo, eu sei onde é. Até mais, beijos’ e desligou.
‘Você está me trocando por ela’ Arthur disse se fazendo de ofendido ‘Vou me lembrar disso, ok?!’
‘Sinto muito, docinho, mas você não me ouve mais, nada é como antes’ Micael balançou a cabeça ‘Eu preciso procurar novas amizades, novos caminhos, seguir minha vida’ e os dois caíram na risada.
‘Bom encontro, cara’ Arthur deu tapinhas nas costas do amigo.
‘Por que não liga pra Lua agora? Podia convidar ela pra ir ao cinema, sei lá’ Micael sugeriu ‘É uma boa investida’
‘Não, vamos dar tempo ao tempo’ Arthur disse paciente ‘Mesmo porque eu tenho que passar no mercado agora. Acabou o meu miojo’
‘Boas compras então, dude. A gente se vê’ Micael disse abrindo a porta do apartamento. Arthur deu mais um tapinha no ombro do amigo e foi apertar o botão do elevador.
‘Owwwn cara, que fofo!’ Sophia disse toda sorridente, colocando o telefone na base. Lua calçou os tênis e levantou do sofá.
‘Então vai sair com o Micael?’ perguntou sorrindo também ‘Que bom, prima, que bom’
‘Que ótimo, isso sim! E você?’
‘Eu? Eu nada, eu vou pra casa porque logo o Micael tá por aí’ Lua pegou o blusão branco de moletom que tinha deixado no braço do sofá e vestiu.Sophia cruzou os braços.
‘E cadê o Duncan pra te ligar numa hora dessas?’ perguntou arqueando a sobrancelha. Lua riu.
‘Duncan deve estar curtindo a vida dele sozinho. Esquece ele por enquanto’
‘Então você deveria ir curtir a sua também’ Sophia apontou pra prima, séria ‘Já que aquele babaca resolveu te ignorar por causa dos amigos que você tem, saia com outro babaca, mas que pelo menos não te ignora’
‘Outro babaca?’ Lua franziu a testa, desentendida.
‘Arthur Aguiar’ Sophia respondeu e riu. Lua balançou a cabeça.
‘Eu não vou sair com ele, Sophia. E ele não é um babaca, deixa de besteira. Eu vou é pra casa’ disse puxando o zíper do blusão pra cima. A prima sorriu meio compadecida.
‘Certo, se você prefere assim. Eu até convidaria pra sair comigo e com o Micael, mas...’
‘Mas eu não sou castiçal pra segurar vela, exatamente’ Lua disse e as duas riram ‘Agora vai, vai se arrumar que o Borges chega a qualquer momento’
‘Ih, é melhor eu ir mesmo. Mais tarde eu te ligo, ok?!’ Sophia deu um beijo na bochecha da prima e correu pro quarto pra trocar de roupa. Lua balançou a cabeça e foi abrir a porta da casa.


















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