Capítulo 19 -
Londres; Audi preto; segunda-feira; 5:40 da tarde;
Lua teria ficado surpresa ao ver Thur entrar na rua errada, a caminho de
sua casa. Teria ficado surpresa ao saber que fora de propósito, mas não
ficou. Não ficou porque no fundo sabia o que ele pretendia fazer.
Ou não.
Claro que não.
Porque ficou extremamente surpresa ao olhar pro lado, assim que ele estacionou, e ver uma mansão abandonada.
Um cara normal a teria levado ao cinema. Um cara normal a teria levado
ao parque de diversões. Um cara normal - um nerd talvez, mas não um cara
normal - a teria levado para uma feira de quadrinhos. Mas, com certeza,
um cara normal nunca a teria levado a umamansão abandonada. Sério. Qual era a dele?
- Ahn... Eu perdi alguma coisa? – perguntou inocentemente.
Thur apenas riu, o que a fez levantar uma das sobrancelhas.
- Sério, Aguiar. Tudo bem você desviar do caminho da minha casa pra me
levar... Sei lá, pra jantar, mas me trazer para frente do portão de uma
mansão abandonada? É muito estranho... Até mesmo pra você.
- Desculpe. – ele disse, embora ainda sorrindo. – Eu queria te mostrar
esse lugar. – o sorriso desapareceu subitamente e seu olhar ficou vago. –
Não sei por quê. Só quis.
- E esse lugar é o que, exatamente? – Luinha voltou seus olhos para a construção.
O portão de finas lanças negras guardava uma enorme casa de três andares
ao fundo. A mansão tinha as janelas escuras e as paredes num tom já
gasto de salmão. Alguma gosma verde escorria do telhado, indicando a
falta de limpeza do local.
Além do abandono, a residência tinha um vento mais fresco, mais sombrio.
Algo naquela atmosfera era capaz de arrepiar Luinha até o último fio de
cabelo. Aquela casa parecia não apenas solitária... Mas morta. O céu concentradamente mais cinzento por trás dos salgueiros do jardim apenas reforçava aquela sensação.
Por que Thur a havia levado ali, afinal? Quero dizer, que tipo de pessoa tinha fantasias com aquele lugar?
- Eu morava aqui. – ele disse. - Até ano passado.
‘Cruzes’, Luinha pensou, mas recompôs sua feição séria rapidamente.
- Hm. O que aconteceu aqui pra você se mudar? – olhou-o curiosa.
Arthur fez alguns segundos de suspense, devorando-a com o olhar como se não quisesse perder nenhum detalhe de sua reação.
- Um assassinato. – ele deu de ombros. Depois abriu a porta do carro e o
contornou com a mesma tranquilidade que teria se tivesse dito: “Você
viu o jornal essa manhã?”
Mas isso não assustou Luinha. Assustou, aliás. Mas não o fato de ele ter
dito as palavras daquele modo. A garota sabia muito bem que, quando as
pessoas se importam demais com algo, gostam de demonstrar que não ligam,
como uma defesa natural.
Assim como Thur fez naquele momento.
Isso não a assustou. O que realmente era apavorante era o fato de ele tê-la levado pra lá.
Assim que o menino abriu a porta, ela o olhou com uma cara que o mesmo julgou estranha, fazendo-o gargalhar.
- Sério, por que me trouxe aqui?
Thur parou de rir se sentindo um completo idiota. Os impulsos de suas
vontades o haviam levado a dirigir até aquele lugar. Era seu desejo
levá-la à mansão... Mas estava nervoso... E ria. Ria porque achava graça
nas caretas da garota e ria porque estava inteiramente ansioso.
- Por que me trouxe aqui, Thur? – Lua voltou a perguntar.
O rapaz ficou um tempo em silêncio, depois respondeu com uma solenidade fria na voz:
- Porque hoje, pela primeira vez, eu segui em frente. – ele sorriu
fraco, forçando-a, com um brilho renovado nos olhos, a fazer o mesmo.
Thur segurou a mão da menina, conduzindo-a para fora do carro, e assim
que Lua ficou em pé ao seu lado, ele entrelaçou seus dedos, lançando-lhe
um sorriso torto.
Incrível como, em alguns momentos, as coisas parecem tão perfeitas. Não
importa se são apenas minutos ou segundos, mas pequenas provas desses
instantes ideais são capazes de dar a alguém um motivo para viver. E
esse motivo seria a esperança de viver novamente a perfeição.
Era exatamente isso o que Thur pensava, enquanto caminhava de
mãos dadas com Luinha rumo a uma divisória menor do portão preto. Assim
que chegou, tirou o chaveiro do Audi de seu bolso, e com uma das chaves
nele pendurada, abriu a portão menor.
O ranger teria feito Lua estremecer se ela não se sentisse completamente
segura ao menor contato físico com Arthur. Um toque dele era capaz de
fazê-la se sentir envolta em um manto de proteção.
Quando colocou os pés dentro da propriedade, um novo ar gelado foi de
encontro a suas pernas descobertas. As folhas que se amontoavam no chão
foram arrastadas pelo vento que Luinha inalou. Aquele lugar tinha um
cheiro estranho. Era uma mistura do ar mais puro das plantas com uma
poeira fantasma. Um cheiro de móvel velho... De cemitério.
Lua só voltou à realidade quando ouviu o bater do portão, atrás de si.
Voltou-se para olhar e acabou encontrando os olhos de um Thur acanhado,
que enquanto uma de suas mãos estava ligada a dela, a outra estava
timidamente escondida no bolso.
- Acho que você não quer me mostrar o local exato onde... – ela começou receosa.
Ele sorriu.
- Não, não. Não vou te mostrar onde aconteceu.
Ele continuou andando em direção ao casarão velho, que parecia aumentar cada vez mais a cada passo que davam.
- Então pra onde...?
- Nos fundos da casa – ele interrompeu – há uma piscina. É a única coisa que eu fiz questão de que fosse tratada.
Apesar de se perguntar o que ele via demais nisso, Lua seguiu com Arthur sem contestar.
Ao contornarem a grande e sombria casa, a alguns passos, tinha uma
enorme piscina, que de fato, era a única coisa nas redondezas de
aparência preservada.
- Minha mãe a adorava. – Ele esclareceu. – Por isso fiz questão de mantê-la inteira.
- É uma boa piscina.
- Já foi melhor – ele deu de ombros.
Thur seguiu até uma das espreguiçadeiras brancas de plástico e sentou-se na beirada, comLuinha se postando ao seu lado.
Ela examinou o rosto contemplativo de Arthur, perguntando-se sobre o
relacionamento do mesmo com a mãe. Depois de um breve momento calada,
ela se pronunciou, ainda observando a luz fraca do sol que batia na água
refletida nos olhos menos opacos do rapaz.
- Como ela era?
Ele suspirou, apoiando os cotovelos no joelho e dando um sorriso fraco.
- Ela era tão linda e tão doce que até hoje me pergunto como ela
aguentou meu pai – ele riu. – Se bem que a tolerância deve ser algo
natural nas mulheres. Você está aqui, não está?
- Estou. – Lua torceu a boca. – Mas duvido que o motivo pelo qual ela estava com seu pai fosse a tolerância.
- Que outro motivo pode haver?
Luinha sentiu-se desconfortável, abraçando a si mesma pelo frio e por
não querer dizer a resposta. Thur, percebendo o silêncio, encarou-a e
notou suas bochechas coradas.
Ele levantou as sobrancelhas, sua face ficando rosada numa dedução silenciosa. Depois, ele verbalizou seu entendimento:
- Amor.
- Não acha que tenha sido isso? – ela perguntou.
- Acho que meu pai não é o tipo de ser humano amável.
- Duvido que ele seja tão ruim.
- Luinha, não veja tanto o bem nas pessoas. Muitas delas não merecem. –
Ele respirou profundamente, depois passou as mãos nos cabelos.
- Você acha que não merece?
Thur voltou a olhar pra frente.
- Talvez não mereça. – Falou, em um murmúrio triste. – Ninguém que
perdeu a motivação de viver pela morte de alguém que amava merece ser
visto com bondade. O amor à vida nos torna humanos. Sem isso não sou
nada.
- Então o que eu sou? – Luinha quis saber.
Arthur a olhou espantado. Perguntou-se se ela havia escutado direito o que ele acabara de falar.
- Conheço poucas pessoas que amem tanto a vida quanto você, Luinha.
- Então não me conhece. – Ela declarou. – Por muitos anos pensei que
sofreria menos se morresse. - Thur sentiu-se como se tivesse acabado de
levar um tapa no rosto.
- Por quê? Você nunca perdeu ninguém...
- Você acha que não? – Lua franziu o cenho.
Enquanto o vento soprava, arrastando as folhas e os fios de cabelo
soltos de Lua, Arthur engoliu em seco. As ondulações da água
acompanhavam o chacoalhar das árvores e a temperatura anunciava a
proximidade do inverno.
Os olhos de Thur desceram do olhar severo de Luinha para sua saia, que rodopiava com a ventania.
- Quem? - perguntou.
Lua ajeitou os cabelos atrás da orelha, antes de começar a falar. Seu olhar vacilou do incisivo ao triste no mesmo instante.
- Eu tinha uma irmã. Lilian – esclareceu. – Ela era três anos mais nova
que eu. Hoje pode não significar muita coisa, mas na época ela me
tratava como sua tutora, como se eu pudesse dar todas as informações que
ela não tinha sobre a vida. Eu queria ter dado...
- O que aconteceu com ela?
- Estávamos jogando bola em um parque, no Brasil. Nossos pais estavam
organizando o piquenique quando eu lancei a bola e a Lily não conseguiu
pegar – seus olhos lacrimejaram. – Ela correu para o meio da rua para
buscá-la e quando a alcançou não teve tempo de se desviar do... – Lua
fechou os olhos. – Eu tinha oito anos quando aconteceu.
- Sinto muito, Luinha... Eu, eu não sabia. – Arthur abraçou-a de lado, de modo que a menina escorasse a cabeça em seu peito.
- Eu só queria que você soubesse que, por mais que doa, por mais que
pareça que não... É possível seguir em frente. Voltar a ser feliz não
significa esquecer, Thur.
Ele absorveu suas palavras em um silêncio respeitoso, enquanto
estreitava ainda mais seu braço direito em torno da garota. Com a mão
esquerda levantou o queixo de Luinha em sua direção, de forma que ela
pudesse encarar seus olhos semicerrados mostrando uma franqueza e
contundência incrível.
- Eu sei. – Thur disse, antes de beijá-la.
Lua sentiu como se estivesse sendo acariciada por uma borboleta,
enquanto seus lábios e os de Arthur se moviam em sintonia. Thur fazia
questão de ser carinhoso e profundo ao mesmo tempo, como se pudesse,
através daquele beijo, levar embora todas as angústias da menina.
Afinal, descobrira que não havia glória em acabar com a própria vida,
mas sim conduzi-la para onde pudesse haver felicidade. E ele estava
fazendo um bom trabalho. A felicidade para ele era tocável, e ele a
sentia e via em forma de mulher. Uma única mulher, que no momento estava
em seus braços. Era como ter a própria felicidade rendida a suas
carícias.
Thur sorriu, enquanto descia suas mãos até a cintura de Lua.
Ambos estavam tão envoltos no momento que não perceberam o barulho de
folhas se amassando com os passos de alguém na lateral da casa. O mesmo
alguém que, ao vê-los ali, escondeu-se nas sombras, deixando um sorriso
interessado surgir em seu rosto magro.
O homem, cujo os lábios que antes se curvavam em um sorriso curioso, que
agora havia se tornado cruel, vestia um terno cinza. Recuou um passo
quando viu o rosto do rapaz caucasiano e da garota de cabelos escuros se
afastarem, mas só quando os dois retornaram a seu beijo apaixonado,
deitando-se na espreguiçadeira, foi que enfim pôde se afastar.
As notícias em Londres nunca tiveram a necessidade de correr tão depressa.
Londres; Oxford Street; segunda-feira; 7:45 da tarde;
Rod estava sacudindo o corpo no sofá azul da sala de estar, num
movimento desengonçado que o mesmo chamava de dançar. Durante sua dança,
também pulava, e havia quase dois minutos em que estava gritando coisas
como: “YEAH!” E “UHUL!”.
O pai o estaria repreendendo por sujar o tecido do sofá com seus tênis
sujos se não estivesse tão feliz pelo próprio filho. Tinha até se
disposto a pedir uma pizza, e era exatamente isso o que estava fazendo
quando Luinha entrou suspirosa em casa.
A garota respirou fundo, sacudindo sua blusa para controlar o calor do
corpo enquanto afirmava para si mesma que aquela tinha sido a melhor
tarde de sua vida. Quando virou-se, deu de cara com o primo movendo-se
de uma forma estranha.
- O que aconteceu?
- A melhor coisa que poderia acontecer! – Rod gritou.
- Hm... Ganhou na loteria? – ela sugeriu, sentando-se no outro sofá e deixando o corpo mole.
- Não. Okay, não é a melhor coisa que poderia acontecer. – Rodrigo
revirou os olhos, parando de pular e se sentando. – mica acabou de
ligar. Falou que nossa banda foi escolhida pra tocar na DJ Yog sexta-feira.
- DJ Yog seria...?
- A boate mais badalada do momento – ele cruzou as pernas e os braços,
que colocou atrás da cabeça. – Certo, não é bem uma boate. É mais uma
casa de festas. Mas ainda assim é badalada.
- Isso é fantástico! – Luinha bateu palminhas, empolgada pelo primo. – Quanto custa os ingressos?
- Um pouco mais caro, tendo em vista que essa é uma festa temática. – Rod ficou pensativo. – É um baile à fantasia.
- Amanhã mesmo vou procurar por uma...
- Luinha, por acaso você se lembra de que dia é sexta-feira? – Rodrigo
levantou uma das sobrancelhas, vendo a prima se levantar apressada em
direção ao telefone, provavelmente para ligar pra Mel.
- Sexta? Ah, hm... – ela pensou um tempo. – Dia vinte e quatro? – Arriscou.
Rod balançou a cabeça, descrendo da falta de atenção da menina.
- Lua, essa sexta é Natal.
Londres; Hyundai i30 prateado; terça-feira; 5:40 da tarde;
- Sabe há quanto tempo nossa aula de educação física acabou? – Mel
perguntou aparentemente furiosa, segurando o volante do carro. –
Quarenta minutos! E sabe o que você disse? “Ah, Melzinha, espera só um
segundinho que eu vou ao banheiro é já volto”. Qual o significado de “JÁ
VOLTO” para vocês, brasileiros?
Mel bufou, olhando de soslaio para Lua, que, apesar da repreensão, parecia tranquila.
- Qual o problema com você? – perguntou ainda vermelha. – E onde você passou o recreio afinal?
Luinha desviou o olhar da rua para Melzinha devagar.
- Desculpe. Tive alguns impasses femininos. E hoje no recreio eu
estive... – ela corou, lembrando-se de estar emaranhada entre braços,
pernas e beijos no corredor do terceiro andar da escola. – Por aí.
- Você não tem jeito mesmo. – Mel expirou. – Só espero que as lojas de
fantasia ainda estejam abertas. E que ainda dê tempo de comprar os
presentes. – completou.
Lua concordou e escorou a cabeça na janela do carro, deixando sua mente
vagar para o final da educação física, quando viu Thur a chamar atrás do
ginásio e disse à amiga que iria rapidamente ao banheiro.
Luinha realmente esperava que o momento em que estava com Arthur fosse
breve, mas seus beijos e toques a tinham feito perder a noção do tempo.
Atrás do ginásio parecia ter se tornado, desde o início das aulas, o seu
local favorito de encontro, e depois daquela tarde o título apenas
havia sido reforçado.
Seu contato físico com Thur era sempre mais quente do que o de Duan e
Nick jamais foram. Seu corpo reagia de forma diferente. Aquecia-se
rapidamente com seus abraços e chamegos.
Seu deleite com tal relacionamento era tanto que só conseguia pensar
em Thur ao escolher sua fantasia. Só conseguia pensar em Thur ao passar
pela vitrine das lojas para escolher os presentes.
Mel tentava de todas as formas atrair a atenção da amiga para seus
assuntos, mas era impossível. Ela estava em outro lugar. Melzinha até
suspeitava onde, ainda mais com os lábios roxos com os quais a amiga
apareceu ao chegar ao carro que Chay havia lhe emprestado. E as marcas
vermelhas no pescoço da menina eram um indício de que as suspeitas não
estavam tão erradas.
Ao alugar as fantasias, Mel comentou o quanto estava empolgada com a
apresentação da banda dos garotos: “Hey Dude”. Lua concordou, o que a
fez voltar à realidade durante alguns momentos, concluindo que nunca
tinha ouvido o nome da banda.
Londres; Oxford street; sexta-feira; 9:27 da noite;
O baile à fantasia começaria às dez horas, e sabendo que o show seria às
onze, os garotos queriam chegar pontualmente no início, para organizar
os instrumentos de uma vez.
Luinha, em seu quarto, estava organizando seu cabelo encaracolado
embaixo da capa vermelha que compunha a fantasia. Não havia reparado no
quanto a saia vermelha era curta, o que a deixava com um ar mais sensual
do que ela pretendia. A blusa branca frisada, de elásticos, tinha suas
mangas curtas pendidas abaixo dos ombros da garota. O espartilho preto
alçava-se nos ombros e era amarrado na barriga por uma corda branca e
fina.
Luinha observou, com os cílios pesados pelo rímel, a meia branca 7/8 e o
sapato de salto de verniz. Sua bochecha rosada pelo blush, a sombra
preta brilhante, os cabelos cacheados e os cílios longos, somados ao
figurino, a faziam parecer uma boneca.
Segurou a cesta de vime com a tampa coberta por um lenço branco e rosa
xadrez, que completava a fantasia, e abriu a porta para se dirigir ao
quarto do primo. Já tinha colocado o pé no corredor quando seu celular
tocou em cima de sua cama e a menina deu meia volta para atendê-lo.
Era Thur.
- Alô?
- Lua – ele falou devagar, como se quisesse ouvir a própria voz pronunciando o nome. – Vai ao baile hoje?
- Thur – ela fez o mesmo. – Vou, sim. Não poderia perder os meninos tocando nem se quisesse. Eles já são uma família pra mim.
- Toda a Highgate vai a essa festa – ele comentou leve, depois seu tom
mudou para o severo. – O que significa que você tem que se cuidar.
- Eu vou estar no meio de amigos, Aguiar. – ela revirou os olhos. – E
não precisa dizer que eu tenho que estar atenta, é a única coisa que eu
escuto desde que cheguei aqui. Acho que o significado já está meio
incrustado em mim.
- Só queria reforçar... Você vai com seu primo?
- Já estamos indo, aliás. O Rod deve estar tendo problemas com a
fantasia, em dias normais ele já estaria me apressando há séculos. – Ela
riu, fazendo com que Arthur fizesse o mesmo. – É uma pena que você
tenha tanta aversão às festas. Queria que você estivesse lá...
Ele se calou por um momento.
- É realmente uma pena.
Lua ia completar a ligação com mais alguma coisa quando ouviu duas
batidas na porta. Lá estava Rod, com uma venda azul passada em volta dos
olhos, com apenas dois buracos para que pudesse enxergar, e uma
armadura marrom, que atrás se tornava um casco de tartaruga. Luinha
juntou as sobrancelhas olhando estranhada para o primo.
- Eu sou o Leonardo. – Sorriu inocente e a prima gargalhou.
- O que foi, Luinha? – Thur perguntou com o tom de voz divertido pela risada da menina.
- Rod chegou aqui. Ele vai de Leonardo, das Tartarugas Ninjas – ela
gargalhou novamente. – Se eu tivesse ido com ele escolher a fantasia,
acredite, isso nunca teria acontecido.
Quem riu agora foi Arthur, que depois de um momento silencioso disse antes de desligar:
- Boa noite e feliz natal, minha Luinha.
Lua sorriu ao desligar, depois analisou o primo de cima a baixo.
- Que coisa mais ridícula – riu novamente. – Mas ainda assim é incrivelmente fofa. Como você consegue?
- Eu sou fofo por natureza. – Ele sorriu triunfante. – Pronta para ir, Chapeuzinho?
- Prontíssima.
Londres; DJ Yog; sexta-feira; 10:30 da noite;
Lua e Mel já tinham fofocado sobre a festa inteira. O lugar estava
enfeitado de branco e dourado, as músicas que tocavam eram eletrônicas e
a pista era banhada com tons de azul, vermelho e verde, que eram
refletidos pela máscara dos garçons, que serviam imensas variedades de
comida e bebida.
Mel vestia um vestido branco, com os cabelos longos enrolados em tranças
e presos em formato circular nos dois lados da cabeça, assim como a
princesa Lea, de Star Wars. ForaChay quem dera a ideia para sua
fantasia, e ela não achou ruim, ainda mais por ser fã da série.
De fato, praticamente toda a Highgate tinha comparecido.
Duan estava de príncipe encantado, galanteando uma garota vestida de
fada Sininho.Luinha ficou feliz por ver que ele tentava seguir em
frente, assim como ficou feliz ao ver queRod não pagaria mico
sozinho. Chay e mica vestiam a mesma fantasia de seu primo, a diferença
era a cor das faixas amarradas em volta de seus olhos. A de Chay era
laranja (Michelangelo) e a de mica roxa (Donatello).
Enquanto esperava a hora do show, mica dançava espaçoso no meio da pista
de dança, despertando olhares divertidos das garotas ao redor e
desdenhosos dos garotos. Vestida de Alice no país das Maravilhas, Sophia
o assistia com o olhar espelhando esperança e desgosto.
Para ela, aquela sempre seria uma relação utópica: ela odiava amá-lo,
portanto não faria e nem aceitaria nada que os fizessem reatar.
Alguns funcionários, espalhados pela festa, estavam fantasiados de
cupidos. Anotavam e entregavam bilhetes de admiradores para os rapazes e
moças do local.
Lua observou enquanto um deles aproximava-se de Mel e lhe entregava um bilhete.
“A terceira música é sua”, dizia. Mel corou, sabendo que tinha
vindo do namorado. Pelo jeito não esperava que alguma das letras fosse
dedicada a ela, pois colocou o bilhete junto ao coração, assim que
terminou de ler.
- Fiquei até com sede. – Comentou com um sorriso bobo na face, depois tomou um gole do coquetel que estava em sua mão.
- Onde encontrou os coquetéis, Melzinha?
- No outro lado da pista tem um balcão com alguns homens fazendo
malabarismo com os copos. Dando a volta no círculo do centro você acha
rapidinho. – Apontou.
Lua consentiu e pôs-se a caminhar entre as pessoas, em direção ao outro lado da DJ Yog.
Pôde ver Brittany com um maiô branco e orelhas de coelho. Provavelmente
era a coelhinha da Playboy. ‘Vadia’, Luinha pensou. Kimberly também não
estava muito diferente, com sua fantasia exageradamente aberta e colada,
de mulher gato.
Empurrada pelos ombros da multidão, começou a andar rente às paredes e
cortinas vermelhas, que eram a única coisa que destoava da decoração
branca e dourada.
Quando viu a mesa onde três rapazes faziam malabarismo com copos e
usavam pulseiras e colares de neon, acelerou seus passos. Mas seu andar
foi interrompido por uma capa escura, que cobriu sua visão enquanto ela
sentia duas mãos firmes a empurrando até a parede. Lua deu um grito de
protesto, que foi silenciado quando lábios familiares se juntaram aos
seus.
Quando se separaram, Luinha conseguiu encarar, confusa, os olhos satisfeitos de Thur.
- O que está fazendo aqui? – perguntou, percebendo que ele a havia
conduzido até o lado de uma das enormes cortinas e agora a empurrava
para debaixo da mesma.
- Queria te fazer uma surpresa. – Ele sorriu.
Lua, antes de ficar imersa na escuridão da cortina, observou as vestes
de Thur. O rapaz usava um colete vermelho por cima de uma blusa de
mangas compridas de cetim. Usava calça e sapato social preto, com uma
capa da mesma cor.
- É claro que estou surpresa. – Falou com a voz abafada pelo veludo vermelho do colete, enquanto ele a abraçava carinhosamente.
Depois que a soltou, por uma fresta de luz, Luinha observou-o analisá-la
de cima a baixo, sentindo o estômago se revirar com esse ato. Arthur
sorriu e disse:
- Chapeuzinho, hm? Bem adequado você vir com a fantasia da garota que se
rendeu ao lobo mal. – Deu uma risada baixa e pretensiosa.
- E você? – ela perguntou levantando as sobrancelhas, mesmo que brincalhona. – Está de Edward por quê?
- Lestat, por favor. – Rolou os olhos, de forma que Luinha gargalhasse.
- Eu gostei. – Voltou a ficar séria, passando os braços em volta do pescoço dele.
- Já eu, - Thur disse se aproximando da menina. – não.
Beijou-a de sua forma usualmente apaixonada, abaixando o capuz vermelho e
passando as mãos desde os cachos até toda extensão do tronco da
garota. Luinha, sem perder a oportunidade, fez o mesmo, registrando cada
centímetro tocado em sua mente.
- Senhoras e senhores, - disse um senhor vestido de curinga ao microfone
em cima do palco, em uma das extremidades da boate. – a DJ Yog tem o
prazer de apresentar a banda que ganhou o nosso concurso de melhor
música com: “Ponto de Vista”! Com vocês... “Hey Dude”!
As várias pessoas começaram a aplaudir e fazer sons de aprovação,
enquanto os três rapazes vestidos de Tartarugas Ninjas subiam ao palco.
Lua afastou seu rosto do de Thur um pouco desnorteada, depois de um tempo seus olhos entraram em foco.
- É a banda dos meninos! – disse, ainda envolta pelo breu embaixo das cortinas. – Precisamos ir, Thur.
Ele olhou-a fixamente.
- Não posso ir com você.
- Por que não?
- É melhor... Manter nosso relacionamento discreto por enquanto. – estreitou os olhos. – Me parece mais seguro.
- Entendo. – ela concordou. – Eu preciso ir, Thur. Rod está esperando que eu veja, não posso perder nem um segundo.
Luinha impulsionou-se para sair de baixo das cortinas, mas Arthur segurou seu braço.
- Você volta?
Ela sorriu.
- Assim que terminar.
Lua desviou-se no meio das pessoas até o lugar onde Mel continuava,
aplaudindo de pé a entrada dos meninos. Antes de chegar, esbarrou em
Scott, fantasiado de Robin Hood. O mesmo lançou-lhe um olhar pouco
amistoso, antes de se afastar da vista de todos.
Foi Rod quem assumiu o microfone:
- Boa noite e feliz Natal, galera! Vamos começar com a nossa música
vencedora, escrita por nosso amigo mica – Rodrigo apontou-o com a
mão, mica acenou. – para uma pessoa especial. Espero que gostem.
Assim que começaram os primeiros acordes, Mel e Lua gritaram alto, em meio aos aplausos.
“Estou ficando cansado de perguntar
Esse é o momento final
Então, eu te fiz feliz?
Porque você chorou um oceano
E há milhares de linhas
Sobre o jeito que você sorri
Escritos na minha mente
Mas cada palavra foi uma mentira
Eu nunca quis que tudo terminasse dessa forma
Mas você consegue pegar o céu azul e transformá-lo em cinza
Eu te jurei que faria o melhor para mudar
Mas você disse que não importava
Estou te olhando por outro ponto de vista
Não sei por que, diabos, me apaixonei por você
Eu nunca desejaria que alguém se sentisse como me sinto”
Luinha reconheceu a música que mica escreveu para Sophia, que, como Lua
observou, estava desconfortável em sua cadeira enquanto ouvia a música
escrita pelo rapaz. Durante o início segundo refrão, Sop desatou a
chorar, tanto que teve que se levantar para ir ao banheiro. Luinha viu,
por baixo do vestido azul, que a barriga da Sophia já estava se
pronunciando, e observou também o olhar magoado de mica ao vê-la sair
dali chorando.
Mel estava distraída demais com as habilidades musicais de seu namorado para perceber o que acontecera com Sophia.
A plateia aplaudiu veementemente a primeira música, com uivos de
aprovação e incentivo.Rod, mica e Chay ficaram tão animados
quanto Melzinha e Luinha, que faltavam cair de tanto gritar e
aplaudi-los.
- Não sabia que eles eram tão bons! – Lua gritou para a amiga.
- Meu Chay é ótimo! – Mel respondeu, dando pulinhos contentes.
Quando a terceira música começou, Chay lançou um olhar significativo
para a namorada, que se sentou em uma das cadeiras próximas com a
bochecha avermelhada.
A música “Eu tenho você” começou a ser tocada.
“O mundo seria um lugar solitário
Sem aquela que coloca um sorriso em seu rosto
Então me abrace até o sol se pôr
E eu não estarei sozinho quando estiver triste
Porque eu tenho você
Para me fazer sentir forte
Quando os dias são duros
E as horas parecem mais longas
Eu nunca duvidei de você de forma alguma...”
Depois dessa, os garotos tocaram mais duas músicas, que foram aplaudidas e aprovadas com tanto entusiasmo quanto as primeiras.
- Pessoal, - disse Rod, sacudindo a cabeça para que os cabelos suados
saíssem da frente dos olhos – sabem que horas são agora? – alguém
próximo ao palco lhe respondeu. Rod riu ao microfone. – Muito bem. São
cinco para meia noite. Para não perder os bons costumes, sugiro que
agora comecemos uma reza, para agradecer tudo de bom que nos foi
concedido esse ano...
Enquanto Rod falava, um dos homens fantasiados de cupido da festa
aproximou-se deLuinha, entregando-a gentilmente um bilhete que dizia:
“Ainda espero meu presente de natal. Encontre-me no terraço assim que receber o bilhete.”
Lua sorriu de uma orelha a outra, agradecendo ao homem e se virando no
meio da multidão para alcançar as escadas que a levariam até o terraço.
Chegando lá, abriu a porta devagar, em expectativa...
Rod e Chay saíram do palco depois de mica, que fora buscar algo para beber.
Assim que desceram, Mel recebeu o namorado com um beijo intenso, que fez Rod rolar os olhos em constrangimento.
- Onde está Luinha? – quis saber.
- Ela estava aqui agora. – Mel esclareceu, olhando a sua volta. – Deve ter ido buscar um ponche ou algo assim. Relaxe.
- Eu estou relaxado. – Rodrigo respondeu como se fosse óbvio.
Chay deu pigarro.
- Por falar em ponche, estou morrendo de sede. Preciso beber alguma
coisa. – beijou a bochecha de Melzinha. – Espere só um momento. Estou
indo buscar algo para beber e já volto.
Mel concordou.
- Enquanto isso eu e o Rod falamos sobre o show. – Sorriu para ele.
Chay acenou para os dois com a cabeça e seguiu até o círculo central, onde começou a contorná-lo de forma tranquila.
Avistou um bar onde alguns homens serviam bebidas alcoólicas para
menores de idade, e teria passado direto, se seus olhos não tivessem se
fixado numa figura jogada em cima do balcão, com os cabelos lhe tampando
o rosto. Chay se aproximou com descrença, mas depois que mirou melhor,
não teve dúvidas.
O rapaz desacordado era Arthur Aguiar.
mica estava a alguns minutos sentado em uma das mesas afastadas do
centro, próximas a porta de saída da casa de festas. Aquela já era a
segunda garrafa de cerveja que bebia, e sua vista já estava ficando
embaralhada.
Ajeitou-se espaçoso no sofá de tecido dourado em que estava sentado,
tentando distinguir as formas que passavam. Uma delas em particular lhe
chamou a atenção.
Era um rapaz alto, largo, vestido de verde, segurando uma garota
completamente mole em seus braços, como se a mesma estivesse
desmaiada. mica conseguiu perceber que a menina estava descalça, e assim
que tentou interpretar as feições do homem que a carregava, ele saiu
com ela pela porta da DJ Yog.
Dando de ombros, mica deu outra golada na garrafa.
Londres; Oxford Street; sábado; 8:54 da manhã;
Rod se levantara inquieto. Não apenas pelo fato de não ter topado com a
prima logo depois do show, mas pelo fato de não ter topado com ela até agora. Luinha não tinha voltado com ele pra casa, passara a noite fora com Deus sabe quem, sem nem avisá-lo.
Só não estava tão preocupado quanto normalmente estaria porque ela já
tinha passado a noite com Duan uma vez. Não estranharia se estivesse com
ele novamente, ou até mesmo com Arthur Aguiar.
Mas... Caramba! Já eram oito da manhã! Ela já deveria ter voltado ou pelo menos avisado onde estava!
Foi pensando nisso que Rod pegou sua agenda telefônica dos alunos da
Highgate e digitou rapidamente um dos números nela registrados. Ao
quarto toque, Duan atendeu.
- Alô? – ele disse com a voz arrastada, como se estivesse acabando de acordar.
- Alô, Duan? – Rod perguntou esbaforido.
- Não, São Judas Tadeu. Quem é que tá falando?
Rodrigo revirou os olhos.
- Sou eu. Rodrigo Marques. Primo da Luinha.
Duan ficou um tempo em silêncio.
- Ah. – calou-se por alguns segundos. – O que foi?
- Só queria saber se ela passou a noite com você, como da última vez.
- O quê? Ela nunca... – então Duan se lembrou do combinado que a garota
tinha feito com ele, há mais de um mês atrás, quando o pediu para
prometer que não negaria isso pra ninguém. – Ela não está aqui. Não
passou a noite aqui, quero dizer.
Rodrigo sentiu a adrenalina percorrer seus dedos por alguns instantes.
- Obrig...
Foi então que outra voz invadiu o telefone. Uma voz feminina conhecida.
- Com quem você está falando?
Duan afastou a boca para responder.
- Com ninguém da sua conta, Kim.
Ouviu-se um barulho do outro lado da linha e no segundo seguinte era a voz dela que falava.
- Quem está falando?
Rodrigo, ao ouvir a voz nasalada de Kimberly, desligou o aparelho. De fato, Luinha nunca teria passado a noite com Duan.
Rod tentou outro número, o único provável depois do goleiro. Sem a mesma
demora que o loiro, Thur atendeu ao telefone. Diferentemente de Duan,
que tinha a voz rouca de sono, esse estava aflito.
- Alô?
- Alô, Thur? Aqui é o Rod Marques primo da...
- A Luinha está aí? – Arthur o interrompeu. – Ela chegou bem em casa? O que aconteceu?
- Eu... – Rod pareceu confuso. – Na verdade estou ligando pra saber se ela passou a noite aí.
- Não... – ao perceber que seu tom de voz pareceu pensativo demais, Thur completou: - Claro que não.
- Então... Onde mais a Luinha poderia estar? – Rod sentiu um tremor
passar por suas pernas. – O celular dela não atende. Ela não está com
você. Nem com o goleiro. Ela desapareceu, Aguiar. – os olhos de Rod
encheram-se de lágrimas. – Me ajude a achar minha baixinha.
Thur ficou durante largos segundos em silêncio, depois disse com a voz rígida:
- Não saia daí.
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