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14 de abril de 2012

"Forbidden"

Cap. 5
                       


Até o final da semana, os dias passaram normalmente. Lua já estava completamente adaptada a sua rotina morando na pequena cidade inglesa; agora tinha mais amizades no colégio e chegava até mesmo a cumprimentar alguns vizinhos do prédio. Enquanto isso, Arthur curtia cada breve momento em que via a garota por quem se encantara; durante aquela semana ele conseguira tirar mais fotos dela, sempre muito discreto, e aproveitara cada minuto que passava sentado na escada pra poder observar o ir e vir da garota pelo prédio. Normalmente só a via quando ela estava voltando do colégio, apenas umas duas vezes a vira saindo do prédio em horários diferentes. Micael estava se tornando o amigo mais fiel deArthur, por ser o único que melhor entendia os sentimentos do amigo.
‘Eu sei que é difícil, cara. Eu sei que é’ Micael dizia, dando tapinhas no ombro de Arthur, que estava encostado na mureta do pátio antes do sinal tocar na manhã de sexta-feira.
‘Eu preciso arrumar um jeito, Micael’ Arthur suspirou entristecido, olhando pra cantina, onde a novata, que nem era mais tão novata assim, estava com as amigas ‘Preciso arrumar um jeito de falar com ela’
‘Faça como a Sophia’ Rodrigo sugeriu ‘Trombe com a garota no meio do pátio e depois peça desculpas, pelo menos um “Foi mal” você vai dizer’
‘Eu não quero dizer só um “Foi mal”... eu quero conversar com ela. Quero saber tudo sobre ela, ou pelo menos seu nome’ ele disse num tom quase desesperado.
‘Bom, pergunte pra uma das amigas dela’ Chay estava jogando uma bolinha de papel pro alto e segurou a bolinha pra falar ‘Obviamente elas sabem o nome da garota. Ou então pergunte pra um dos outros populares desse colégio’
‘Se você tiver contato com algum deles, nos apresente, por favor’ Micael olhou pra Chay, que apenas encolheu os ombros antes de voltar a brincar com a bolinha. Os quatro ficaram calados por uns segundos.
‘Alguém me arranja o telefone dela?’ Arthur perguntou de repente.
‘Cara, você mesmo acabou de dizer, você não sabe nem o nome da garota!’ Rodrigo exclamou ‘Do que ia adiantar ter o telefone dela?’
‘Eu não sei... mas eu seria capaz de ligar pra ela a qualquer hora’ Arthur argumentou.
‘Você tem algo muito melhor do que um simples telefone’ Chay comentou enquanto amassava a bolinha, tentando deixá-la mais redonda ‘Você sabe onde ela mora e isso, até hoje, não ajudou em nada. Não é a porcaria de um número de telefone que vai ajudar’
‘Eu... eu só não sei mais o que fazer’ ele baixou a cabeça e passou a mão na nuca.
‘Você nunca fez nada, esse é o problema’ Chay disse simplesmente e arregalou os olhos ao ver que Micael o encarava de uma forma desaprovadora ‘Que foi?’
‘Arthur precisa de alguém que o ajude, e não que o deixe mais pra baixo ainda’ Micael franziu a testa.
‘Eu só disse a real, fala sério’ Chay jogou a bolinha no lixo mais próximo.
‘Erm, por que a gente não para de falar nisso?’ Rodrigo perguntou, tentando aliviar um pouco o clima ‘Não vai adiantar nada a gente passar a manhã toda nos lamentando’
‘Vamos pra sala’ Arthur levantou a cabeça e olhou mais uma vez pra cantina, mas não encontrou quem procurava ‘Eu não quero mais ficar aqui’
‘Melhor irmos mesmo’ Micael concordou e, assim que disse isso, o sinal tocou.
‘Ótimo, nossas horas de martírio vão começar’ Chay disse sarcástico.
‘Mais algumas não vão fazer diferença pra mim’ Arthur deu de ombros e os outros acharam melhor não dizer mais nada. Apenas foram pra classe.

No meio da segunda aula, a inspetora do colégio apareceu na porta do 3°A e interrompeu a explicação da professora de História.
‘Preciso de Lua Luinha na sala do diretor, agora’ a mulher chamou.
Sob um olhar curioso dos outros alunos e depois de ver a professora acenar com a cabeça, permitindo sua saída da sala, Lua levantou e foi até a porta.
‘Srta. Luinha, tenho algumas coisas pra fazer agora. Será que a senhorita poderia chamar o Sr. Arthur Aguiar no 3°D pra mim?’ a inspetora pediu aos cochichos pra Lua assim que a garota se aproximou ‘O diretor quer vê-lo também’
‘Ahn, sem problemas’ Lua concordou, fechando a porta da sala às suas costas. A inspetora apenas deu um sorriso mecânico e saiu andando pelo corredor entre as salas, indo pro pátio.
Enquanto ia até a sala do 3°D, Lua ficou pensando no que poderia ter feito de errado pra ser chamada na sala do diretor. Ela não tinha quebrado nenhuma norma do colégio, não tinha batido em ninguém e nem desrespeitado algum dos funcionários. A garota deu duas batidinhas na porta com uma plaquinha indicando “3°D”. Ela ouviu alguém resmungar um ‘Entre’ e abriu a porta, deixando um espaço suficiente apenas pra colocar a cabeça dentro da sala.

Arthur estava com a cabeça baixa, nem prestava muita atenção na aula. Pra ele, era mais interessante passar o tempo vendo as fotos que tinha tirado da garota dos seus sonhos. Às vezes ele abafava uma risada ao ver uma foto em que a garota tinha saído com uma cara engraçada, outras vezes ele apenas sorria ao apreciar o sorriso dela. De repente, ele sentiu alguém cutucar-lhe a nuca e percebeu que a professora não estava mais falando. Então ele levantou a cabeça e viu o que achou que não podia ser real. O que ela estava fazendo ali?
‘Com licença, professora’ Lua pediu e a professora apenas assentiu com a cabeça, então ela continuou. Arthur achou a voz dela incrivelmente doce ‘Me pediram pra chamar Arthur Aguiar. O diretor quer vê-lo’
As cabeças de todos os alunos se voltaram pra onde Arthur estava sentado, até mesmo a professora o encarou. O garoto tinha uma expressão abobalhada na cara e nem piscava. O que ninguém sabia é que ele estava tentando assimilar o que tinha acabado de ouvir e, quando conseguiu fazer isso, finalmente abriu a boca pra falar.
‘E-eu?’ perguntou apontando pra si mesmo. Ele nem sabia de onde tirara coragem pra falar alguma coisa, apenas sentia seu coração bater tão forte que achou que poderia explodir. Micael, que estava sentado atrás dele, cobriu o rosto com as mãos e balançou a cabeça, decepcionado com a reação patética do amigo.
‘Bom, se você chama Arthur Aguiar, acho que é você sim’ Lua disse simplesmente, contendo o riso ao perceber que o menino parecia embaraçado.
‘Erm... erm...’ Arthur não conseguia falar mais nada. Como assim ela estava conversando com ele? Aquilo era algum tipo de pegadinha?
‘O senhor quer fazer o favor de sair da minha sala e seguir a senhorita aqui?’ a professora perguntou séria, apontando pra porta.
Arthur achou melhor não tentar responder mais nada. Apenas levantou da carteira e saiu da sala como e professora tinha pedido. Quando fechou a porta, ele viu que a garota já estava alguns passos à sua frente, então deu uma corridinha pra poder acompanhá-la. Mas, mesmo andando ao lado dela e tendo uma boa chance pra poder puxar algum papo, Arthur não conseguia pensar em nada pra dizer. Os dois ficaram calados até chegar na frente da porta da diretoria. A garota bateu na porta e a abriu antes mesmo de obter resposta.
‘A senhorita primeiro’ o diretor disse lá de dentro e olhou pra Arthur ‘Nos falamos depois, Sr. Aguiar’
Arthur viu a garota entrar na diretoria e a porta se fechar na sua cara. Ele se virou e sentou em uma das cadeiras estofadas que ficavam fora da diretoria. Ficou alguns instantes pensando no que tinha acabado de acontecer: ele finalmente tivera uma oportunidade pra conversar com a garota dos seus sonhos e deixara essa chance lhe escapar por entre os dedos. Arthur achou que seria capaz de se bater e realmente foi; o garoto não se conteve e deu um tapa forte na testa. Então, repentinamente, ele teve uma idéia. Arthur levantou e encostou o ouvido na porta da diretoria. Pelo jeito a conversa não tinha começado há muito tempo e era o diretor quem falava.

‘Bem senhorita, a secretária do seu pai me ligou ontem, perguntando se a senhorita estava...’
‘Pode me chamar de você’ Lua não se conteve e corrigiu o homem, já de idade um tanto avançada, que estava sentado a sua frente.
‘Prefiro tratar meus alunos de um modo mais formal, se é que me entende’ o diretor disse calmamente ‘E eu não me importaria se você se dirigisse a mim como “senhor”’
‘Desculpe, senhor’
‘Sem grandes problemas’ ele balançou a cabeça ‘Mas então, continuando, a secretária do seu pai me ligou ontem pra perguntar se a senhorita estava recebendo o tratamento merecido no nosso colégio’ disse.
Lua entendeu tudo na hora e até se sentiu burra por não ter entendido antes. Era sempre assim quando se mudava pra um país diferente: a secretária do pai ligava no novo colégio perguntando se Lua estava sendo tratada como merecia, então os diretores chamavam a garota e lhe perguntavam se estava satisfeita com o colégio, se queria trocar de sala, se alguém a andava importunando, se poderiam fazer alguma coisa a mais por ela... Só faltavam lhe oferecer um auxiliar que pudesse fazer os deveres e trabalhos por ela! Lua não gostava disso, sempre acabava se irritando porque não se achava melhor do que ninguém. Não era porque seus pais eram diretores de uma empresa multinacional e pessoas consideravelmente influentes na sociedade que ela devia ser tratada como superior. E Lua sabia muito bem que os diretores só lhe ofereciam alguns “privilégios” por interesse próprio, afinal agradar a filha de alguém importante hoje pode trazer benefícios profissionais ou pessoais amanhã. Isso irritava Lua profundamente e a garota não se lembrava de uma vez que aquelas conversas com os diretores não tivessem terminado com ela batendo a porta da diretoria, furiosa. Até porque ela poderia fazer o que quisesse, os diretores não ousariam castigar a filha de empresários importantes.
‘Hoje eu lhe chamei aqui’ o diretor continuou depois de uma pausa longa ‘pra perguntar como a senhorita se sente no nosso colégio. Como foi essa primeira semana de aula?’
‘Tranqüila’ Lua respondeu prontamente ‘senhor’ completou depressa.
‘Que bom’ ele sorriu satisfeito ‘Estão todos lhe tratando bem?’
‘Muito bem, senhor’
‘Ótimo, ótimo’ ele balançou a cabeça afirmativamente ‘Será que não há nada que possamos fazer pela senhorita? Porque, é claro, que eu não gostaria de causar aborrecimentos aos seus pais nem dar-lhes motivo pra se preocupar em como a senhorita está sendo tratada e...’
‘Desculpe senhor, mas eu não faço questão de nada’ Lua o interrompeu, já irritada com aquela babação de ovo que parecia não ter fim ‘Gostaria apenas de ser tratada como qualquer outra das alunas porque, de fato, sou uma garota normal como elas’
‘Não estou dizendo que não é’ o diretor apressou-se em corrigir a impressão que deixara ‘Claro que a senhorita é uma garota normal, mas...’
‘Olha, eu não quero ser tratada como superior porque não sou melhor do que ninguém aqui. Independente do cargo que meus pais ocupam na empresa onde trabalham, acho que devo ser igualada aos outros alunos. Não é minha posição social que vai me diferenciar dos outros que estudam aqui’ ela disse tudo rapidamente, sem dar tempo pra interrupções.
‘Senhorita, eu...’ o diretor parecia pasmo diante do comportamento da garota. Lua se levantou.
‘Quer saber do que mais? Ligue pros diretores dos outros colégios onde eu estudei e pergunte o que eles ganharam e o que mudou na vida deles a partir do dia em que tentaram me tratar como uma aluna “especial”, se é que podemos colocar assim’ ela disse ousada e fez aspas ‘Se não quer realmente aborrecer meus pais, esqueça que eu sou filha deles’ completou.
O diretor se levantou também quando viu Lua se dirigir até a porta, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, recebeu um olhar gélido da garota acompanhado de...
‘Tenha um bom dia, 
senhor’ ela fez questão de enfatizar.

Arthur sorria mais e mais a cada palavra que ouvia sair da boca da garota, do outro lado da porta. Então ela realmente era diferente das outras; o tom que usava pra falar tinha um “quê” de rebeldia e, pelas próprias palavras dela, a garota parecia muito humilde, não querendo se aproveitar da influência dos pais pra ter algum tipo de vantagem sobre os outros. Arthur gostou ainda mais dela só por isso. Nunca teve real atração por meninas que se achavam melhores que os outros; achava isso ridículo.
De repente, o garoto se sobressaltou. Passos estavam se aproximando da porta e ele correu pra sentar na cadeira onde estivera antes. Ele olhou espantado pra garota assim que ela apareceu ao seu lado depois de bater a porta.
‘Desculpe se ele descontar em você a raiva que deve estar sentindo agora... E, de qualquer jeito, boa sorte’ ela disse e sorriu com simplicidade pra ele, saindo de perto e fazendo o caminho de volta pras salas.
Arthur demorou um pouco pra levantar e entrar na diretoria. Quando se sentou na frente do diretor, ele ainda pensava no sorriso dela e lamentava interiormente o fato de que o diretor não mencionara o nome dela nenhuma vez, pelo menos nenhuma vez na parte da conversa que ele tinha ouvido.
‘Então Sr. Aguiar’ o diretor disse e Arthur olhou pra ele. Teve vontade de rir ao ver que o homem realmente não parecia muito bem humorado. O diretor chegou mais perto da escrivaninha ‘Vamos falar sobre o possível show da sua banda...’ e o garoto se empertigou na cadeira, interessando-se instantaneamente.

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