Cap. 12
Na sexta-feira, Lua levou o skate pro colégio e, no intervalo, perguntou se Arthur poderia deixá-la no parque ao invés de em casa. O garoto obviamente não viu problemas e, pra poder ir junto com ela, disse pra Micael que não poderia dar carona pra ele. Micael até reclamou de ter que ir embora a pé, mas entendeu o amigo. Arthur só queria passar mais tempo ao lado de Lua; o máximo de tempo possível, na verdade.
‘Então vai dar mais um show na pista hoje, não é Lua?’ Rodrigo perguntou no horário da saída, quando Lua se aproximou dos portões do colégio.
‘Ah, que nada’ a garota colocou as mãos nos bolsos da calça. Novamente ela fugia dos padrões de vestimenta das outras meninas, a não ser pela blusinha baby look, porque de resto: a calça jeans era pelo menos um número maior que o necessário e o all star estava detonado.
‘E nem nos chamou pra ver hein’ Chay disse. Arthur olhou torto pro amigo, não gostando nem um pouco da simpatia dele.
‘Ué, lá é público não é? Apareçam quando quiserem’ Lua deu de ombros e Arthur quase riu da cara que os amigos fizeram.
‘Mas, bom, a gente quer ver você treinando’ Rodrigo disse.
‘Claro’ Chay concordou ‘e não aquele bando de manés que nem sabem porque estão lá’
Arthur encarou os amigos seriamente. Que negócio era aquele de ficar elogiando Lua sem parar? Eles estavam tentando conquistá-la por acaso? Há, que ótimo, agora seus amigos iam tirar Lua dele?!
‘Eu nem sou tão boa assim’ Lua continuou negando seu talento. Micael balançou a cabeça.
‘Que maravilha, além de tudo ela é modesta’ ele riu, sem perceber o olhar espantado e irritado que Arthur lhe lançou ‘Mas bom, acho que vou...’
‘Lua, estamos indo ok?!’ uma voz feminina interrompeu Micael. Os quatro garotos e Lua olharam pra ver quem estava falando; era Sophia, parada um pouco longe deles e acompanhada por Ana e Mel.
‘Certo, até mais. Beijos’ Lua respondeu acenando.
‘Se cuida. Eu te ligo amanhã pra saber como foi o... bem’ Sophia deu uma risadinha, copiada pelas amigas ‘você sabe. Até’ acenou e virou as costas.
‘Tchau!’ Micael disse de repente. Os amigos o encararam assustados. Sophia olhou pra ele por cima do ombro.
‘Tchau’ ela disse simplesmente, sorrindo e voltando a se virar pra acompanhar as amigas que já iam em direção ao seu carro.
‘Eu não sabia que vocês tinham se falado desde o meu desmaio no Gas’ Lua disse olhando pra Micael.
‘Nós não nos falamos’ ele encolheu os ombros ‘mas não custa nada ser educado’ concluiu e todos riram, exceto Arthur que estava interiormente intrigado com o comentário de Sophia. Ela ia ligar no sábado pra saber como foi o quê? A curiosidade fez com que ele esquecesse até as dúvidas que estava tendo em relação ao comportamento dos amigos quando estavam próximos de Lua.
‘Eu sinto muito elas não conversarem com vocês’ Lua disse ‘Esse negócio de popularidade é tão idiota’
‘Agradeça por não sofrer com isso’ Rodrigo fez cara de coitado e Chay o imitou. Lua riu.
‘Se eu não andasse com elas, não seria popular e duvido muito que sentiria falta disso’ disse. Arthur sorriu com o canto da boca.
‘Você não é como elas’ ele disse simplesmente.
‘Quem sabe eu não faço com que elas fiquem um pouquinho mais parecidas comigo?’ ela sugeriu encolhendo os ombros.
‘Eu te agradeceria pelo resto da vida’ Micael comentou distraído e se arrependeu ao ver Lua o encarar com uma expressão de surpresa.
‘Algum motivo em especial pra isso?’ ela perguntou curiosa. Micael coçou a cabeça, sem graça.
‘Tem, tem um motivo sim’ Arthur afirmou no lugar do amigo, vendo que ele não falaria nada em relação a isso tão cedo ‘Quem sabe um dia o Borges te explica melhor’
‘Ah, não, não estou pedindo explicações’ Lua negou com a cabeça ‘Eu nem conheço vocês direito, não precisam me contar nada’ disse humildemente. Afinal, ela não falava muito com eles, a não ser com Micael e Arthur, com quem conversava durante todo o caminho de volta pra casa. Com Rodrigo e Chay ela falava menos, apenas no horário da saída quando os meninos se encontravam nos portões do colégio. Mas, por mais que brincasse e risse com eles quando conversavam, ainda assim não se sentia amiga deles o suficiente pra ficar conversando sobre assuntos particulares.
‘Nós não temos segredos de estado’ Chay deu de ombros.
‘Mesmo assim...’
‘Outro dia eu te conto, Lua’ Micael sorriu, mais descontraído ‘Agora vou pra casa, pretendo chegar lá antes do jantar’ disse e todos riram.
‘To caindo fora também’ Rodrigo avisou. Chay concordou com a cabeça.
‘Também. Bom treino, Lua’ ele disse.
‘Valeu’ a garota sorriu pros garotos que já se afastavam, seguindo cada um o rumo de suas casas.
‘Pro parque agora?’ Arthur perguntou pra ela, que apenas concordou com a cabeça, animada.
‘Você vai cair’ Lua avisou, sentada num banco depois de passar quase duas horas treinando na pista.
‘Não vou não, eu sei o que estou fazendo’ Arthur tomou um impulso maior e saiu andando no skate da garota. Há tempos ele não andava de skate e já tinha perdido a prática, mas jurava que ainda sabia fazer alguma coisa.
‘Olha os degraus!’ ela disse mais alto, mas não a tempo. Arthur não viu um degrau pequeno e por pouco não caiu. O skate foi parar longe e ele pulou pro lado, evitando se estatelar no chão.
‘Mas você viu’ ele dizia sentando ao lado da garota, depois de ir buscar o skate ‘eu só caí porque não vi o degrau, não foi porque eu me desequilibrei’
‘Claro que não, imagina’ Lua balançou a cabeça, rindo ‘Quando você for se arriscar assim de novo, me chama ok?! Daí quem sabe eu te dou umas aulinhas’
‘Falou a expert’ Arthur riu, fazendo gestos com as mãos ‘Da próxima vez que eu quiser alguém pra me esculachar, eu te chamo’
‘Não se faça de coitado’ ela pôs a língua pra fora e ficou olhando pra pista em frente, observando o pessoal que ia e voltava.
Arthur fingia olhar pra pista também enquanto, na verdade, lançava olhares de rabo de olho pra Lua. Ele gostava de olhar praquela garota, gostava de conversar e rir ao lado dela, gostava quando ela brincava com ele, enfim, gostava cada vez mais dela.
‘Ei, vou pegar alguma coisa pra beber’ ele disse apontando pra pequena lanchonete que ficava mais adiante no parque ‘O que vai querer?’
‘Pega uma água só’ Lua já ia colocar a mão no bolso da calça jeans pra pegar o dinheiro, mas Arthur a impediu, segurando em seu braço.
‘Eu pago’ ele disse ‘Gelada né?’
Lua apenas assentiu com a cabeça e o garoto se distanciou. Por alguns segundos ela ficou olhando enquanto ele caminhava. Aquele era um garoto legal, divertido e educado. Ela mal o conhecia, mas já tinha grande simpatia por ele e sentia até mesmo que poderiam ser bons amigos. Lua sorriu e deitou no banco de barriga pra cima, fechando os olhos por causa dos raios de Sol que iam direto no seu rosto. Quando Arthur estava voltando com duas garrafinhas de água, ele parou a certa distância do banco onde a garota estava deitada e ficou olhando pra ela. Daquele jeito ela parecia ainda mais diferente e mais bonita. Ele chegou perto.
‘Sua água’ disse simplesmente. Lua colocou um braço sobre a testa, fazendo sombra sobre parte do rosto, e abriu os olhos.
‘Valeu, Aguiar’ ela agradeceu sorrindo e pegou a garrafinha que ele lhe estendeu. Arthur sentou num espaço pequeno do banco.
‘Eu não ligo se você me chamar de Arthur’ ele disse abrindo a sua garrafinha. Lua riu.
‘Eu posso tentar’ disse levantando um pouco a cabeça pra poder dar um gole na água. Ela encostou a cabeça no banco de novo, deixou a garrafinha no chão e fechou os olhos.
Arthur olhou pro rosto dela, mais uma vez iluminado completamente pelo Sol. Deus, como ela era linda!
‘O Borges gosta de uma das minhas amigas?’ Lua perguntou interrompendo o raciocínio do garoto. Arthur pensou um pouco.
‘O que te faz pensar isso?’ ele devolveu.
‘Você me respondeu com outra pergunta, isso significa que ele gosta’ ela concluiu sozinha.
‘Devia ter me avisado que era adivinha’ ele comentou. Ela riu.
‘Eu não sou, mas sei interpretar as respostas e as reações das pessoas. Então ele gosta de uma delas, não é?’
‘Bom, sim’ Arthur deu um gole na água ‘Ele gosta da Sophia’ completou. Lua abriu os olhos e levantou a cabeça.
‘Ele gosta da minha prima?’ perguntou surpresa. Arthur riu vendo a cara dela.
‘Yep, desde a primeira vez que a viu’
‘Céus’ ela bebeu um pouco de água e deitou a cabeça ‘ele está com problemas’
‘Ele sabe’ ele disse e os dois riram ‘mas nem por isso ele desiste dela. Ele nunca desistiu, nem quando soube que ela estava namorando. E, sinceramente, acho que nunca vai desistir’
‘Até alguns dias atrás a Sophia achava que o nome dele era Billy’ Lua lembrou rindo ‘Bom, pelo menos agora ela já sabe o nome dele’
‘É um avanço’ Arthur encolheu os ombros e deu outro gole na água.
‘Logo ela vai saber muito mais que o nome dele’ ela disse sorrindo, com os olhos entreabertos.
‘O que você pretende?’ ele perguntou rindo ao encarar aquele rosto bonito com uma expressão tão travessa.
‘Andar com vocês’ ela respondeu simplesmente ‘Se não for incomodar, claro’
‘E por que iria?’ ele arqueou uma sobrancelha.
‘Veja, vou fazer isso pro bem do seu amigo. A Sophia é minha prima, não vai querer perder contato comigo no colégio e então, se eu estiver com vocês, ela também estará’ Lua explicou ‘Por isso vou andar com vocês’
‘Eu estava me referindo à parte do incomodar’ Arthur disse.
‘Ah, certo’ ela riu ‘Bom, não sei. Talvez vocês não queiram andar com uma garota chata como eu. Isso pode denegrir a imagem de vocês’
‘Que imagem?’ ele riu da sua própria situação. Lua cutucou as costas dele com o tênis.
‘Não fala assim’ ela disse séria e virou o rosto, abrindo os olhos pra olhar pra pista.
‘Ninguém se importa com quem estamos andando, Lua’ ele balançou a cabeça ‘As pessoas simplesmente esperam pra ver qual de nós vai ser o próximo a ser mandado pra diretoria ou então ficam nos apontando como os caras que não passam de perdedores idiotas’
‘Vocês são mais do que isso, só que o pessoal daquele colégio é obtuso demais pra enxergar ou reconhecer o tipo de garotos que vocês são de verdade’ ela disse naturalmente.
‘Você não nos conhece realmente...’ Arthur começou. Lua sentou de repente, mantendo as pernas na mesma posição.
‘E quem daquele colégio conhece?’ perguntou encarando o garoto. Como ele não disse nada, ela continuou ‘Talvez ninguém nunca tenha se preocupado em conhecer, mas eu me preocupo’
Eles ficaram em silêncio. Arthur olhou fundo nos olhos dela e não enxergou compaixão ou pena, mas sim compreensão e amizade. Então teve a certeza de que seu sentimento por aquela garota era de verdade e que ele não tinha se enganado a respeito dela. Ela era mesmo tudo o que ele podia esperar, até mais.
‘Você é diferente dos outros’ ele comentou reprimindo a vontade de abraçar e beijar aquela garota que o estava invadindo naquele momento.
‘Espero que isso seja uma qualidade ou algum tipo de elogio’ ela disse.
‘É’ Arthur afirmou simplesmente. Lua sorriu.
‘Que bom’ ela bebeu outro gole de água e deitou novamente ‘Então, voltando ao assunto’ ela começou ‘Você acha que o Borges vai se incomodar se eu der um empurrãozinho no relacionamento entre ele e a minha prima?’
‘Primeiro, não tem relacionamento entre eles’ Arthur disse e os dois riram ‘Segundo, o Borges anda precisando de uma boa ajuda, então duvido que ele vá reclamar se você bancar o cupido’
‘Certo, veremos o que posso fazer por ele’ Lua disse pensativa ‘Mas eu não garanto nenhum resultado ok?!’
‘Não importa, você está no caso’ ele disse de um jeito engraçado, fazendo a garota rir.
‘Obrigada senhor’ ela disse. Arthur olhou pra ela com uma sobrancelha arqueada.
‘Confio em você, agente 001’ ele engrossou a voz.
‘Putz, 001?’ ela fez cara de decepção e eles desataram a rir.
As duas horas seguintes passaram assim: com os dois conversando, brincando e rindo, o que era agradável pra ambos já que assim eles poderiam se conhecer melhor. Era agradável especialmente pra Arthur, que estava tendo a chance de passar mais tempo com a garota que o fazia perder a noção do resto do mundo.
‘Ai... ai Deus’ Lua tentava recuperar o fôlego depois de rir sem parar de uma piada absurdamente engraçada que Arthur tinha contado ‘Certo, essa foi boa...’ ela conteve um novo ataque de risos quando se lembrou de algo ‘Ah caramba, que horas são?’
‘Quatro e meia da tarde’ Arthur respondeu dando uma olhada no relógio. Ele se assustou quando viu a garota levantar do banco rapidamente ‘Que foi?’
‘Eu tenho que ir embora’ ela disse pegando sua mochila que estava jogada no chão ao lado da do garoto. Arthur se levantou.
‘Bom, se você vai, eu também vou’
‘Não precisa’ ela negou com a cabeça, colocando a mochila nas costas ‘Se quiser pode ficar e aproveitar o resto da tarde aqui’
‘Sozinho?’ ele arqueou uma sobrancelha jogando a própria mochila nas costas ‘ Não, obrigado. E outra coisa, eu te trouxe, eu te levo. Nós moramos no mesmo prédio e eu não vou deixar que você volte pra casa de skate de novo’
‘Você é muito chato, sabia?’ ela brincou pegando o skate no chão.
‘No nosso caso, os opostos não se atraíram’ ele disse e os dois foram na direção da saída do parque, rindo.
‘Valeu pelas risadas, Arthur’ Lua disse quando ela e o garoto saíram do elevador e pararam no corredor do quinto andar.
‘Finalmente conseguiu dizer meu nome’ Arthur brincou. Ela pôs a língua pra fora.
‘Sério, obrigada pela companhia’ ela disse sorrindo ‘Você sabe como divertir alguém’
‘Vê? Eu não sou tão ruim quanto as pessoas pensam’
‘Eu sempre soube disso, desde que te conheci’ ela continuava sorrindo e isso fez Arthur se sentir aquecido por dentro ‘Sinceramente eu acho que as pessoas se impressionariam se te conhecessem melhor’
‘É bom saber que pelo menos uma pessoa pensa assim’ ele disse verdadeiramente agradecido.
‘Um dia eu não vou ser mais a única’ ela disse de uma forma doce, o que fez Arthur sentir aquela vontade de abraçá-la e beijá-la crescer novamente. Lua pegou suas chaves no bolso da calça ‘Bom, eu tenho que ir pra casa. Até mais’ ela beijou o garoto na bochecha e se virou pra porta do apartamento 20. Arthur engoliu em seco, desejando não se arrepender mais tarde do que estava prestes a dizer.
‘Não quer ir pra minha casa?’ ele perguntou. Lua se virou pra ele, que tomou coragem pra continuar ‘Bom, não sei, a gente podia comer alguma coisa e conversar um pouco mais ou ver um filme’ uma sensação de “você é um imbecil ou o quê?!” estava começando a tomar conta dele até que a garota sorriu.
‘Eu realmente adoraria, Arthur’ ela disse muito gentil e Arthur sentiu o coração ir à boca ao pensar que poderia passar mais algumas horas ao lado da garota ‘mas hoje eu não posso’ ela completou com cara de quem sente muito. O coração de Arthur escorregou e voltou ao seu devido lugar ‘É que eu vou sair, sabe?’ ela continuou, tentando se justificar.
‘Eu entendo’ ele balançou a cabeça, tentando ser o mais compreensivo possível ‘Hoje é sexta, você já deve ter marcado alguma coisa com as suas amigas ou com a sua prima...’
‘Na verdade foi com o Duncan’ ela soltou. Arthur sentiu o coração escorregar mais pra baixo e ir parar em algum lugar perto do fígado.
‘Então você vai sair com ele?’ perguntou sem saber o porquê, talvez numa tentativa de ouvir uma resposta negativa.
‘Vou’ ela afirmou inocentemente, sem nem imaginar que estava acabando com as poucas esperanças do garoto.
‘Vai ao Gas?’
‘Pode ser’ ela ergueu os ombros.
‘Vai na casa dele?’ Arthur não tinha a mínima idéia do motivo de estar especulando sobre o encontro dos dois, as perguntas apenas saíam da boca dele.
‘Talvez’ ela respondeu simplesmente.
A mente de Arthur interpretou aquele simples “Talvez” como sendo um: “É, talvez eu vá mesmo. Qual é panaca?! Duncan é bem melhor do que você e merece que eu vá na casa dele. Você não passa de um perdedor, não é bom o suficiente pra mim”. Certo, ele sabia que Lua não tinha dito nada disso, mas foi o que ele se pegou ouvindo e se sentiu péssimo por isso.
‘Mas, por que as perguntas?’ Lua quebrou o silêncio e cortou os pensamentos de Arthur.
‘Nada não. Divirta-se’ ele disse forçando um sorriso e se virou pro próprio apartamento.
Lua deu de ombros, imaginando que o garoto apenas estivera um pouco curioso e nada mais, e voltou sua atenção pras chaves na maçaneta da sua porta.


















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