Cap. 6
Lua se olhou no espelho de corpo inteiro que ficava perto do guarda-roupa no seu quarto e estranhou o próprio reflexo. Era sábado e ela ia sair com as amigas e com a prima. Iam encontrar com o namorado de Sophia, o tal Michael, num barzinho no centro da cidade chamado Gas. Como já era noite, Lua tinha terminado de se arrumar depois do banho.
Ela deu uma voltinha em torno de si mesma e riu do movimento que o vestido fez. Há muito tempo ela não vestia uma roupa desse tipo e estava achando graça no visual bem produzido. Lua usava um vestido preto, que chegava até um pouco mais abaixo dos seus joelhos, e sandálias de salto pretas. A maquiagem estava um pouco mais carregada do que o normal e a bolsa preta levava um gloss e um lápis de olho reserva, coisa que Lua nunca tinha por perto se precisasse e também com que nunca se preocupara. A garota ainda estava se admirando no espelho, curiosa e engraçadamente, quando ouviu o celular tocar dentro da bolsa. Era mensagem de Sophia, dizendo que já estava esperando a prima na entrada da frente do condomínio. Lua guardou o celular de novo e saiu de casa.
Assim que abriu a porta, seus olhos encontraram um envelope branco no capacho da porta. Ela abaixou pra pegar a correspondência, que por sinal era a conta de luz, e franziu a testa ao ler o nome da pessoa a quem a conta estava endereçada: Arthur Aguiar.
‘Ah não, não pode ser’ Lua comentou consigo mesma e deu uma olhada no endereço marcado no envelope.
Era aquela mesma a rua, aquele mesmo o bloco, mas o apartamento era diferente. No envelope estava marcado 18 e Lua olhou pra frente. Do outro lado do pequeno corredor do quinto andar ela viu as portas do apartamento 17 e 18. A garota riu baixo com a absurda coincidência e foi até a porta com o número 18 prateado. Ela deixou a correspondência no capacho e deu meia volta. Antes de entrar no primeiro elevador que abriu suas portas,Lua deu mais uma olhada na porta do apartamento e balançou a cabeça, ainda achando graça naquilo.
Arthur estava cochilando no sofá e acordou quando ouviu uma risada e uns “toc toc's” ressonarem em algum lugar próximo. Parecia barulho de salto alto batendo em piso frio. Ele coçou a cabeça e já ia pro banheiro quando o telefone na sala tocou e ele resolveu atender.
‘Alow’
‘Hey dude, tudo beleza?’ Arthur reconheceu a voz de Micael do outro lado da linha.
‘Tranqüilo, e aí?’
‘Também. Seguinte, o Rodrigo acabou de me ligar porque está entediado e sugeriu que a gente desse uma passada naquele barzinho onde vai ser o show, pra conhecer o ambiente e tal... o que acha?’
No dia anterior, o diretor chamara Arthur pra dizer que conhecia o dono de um barzinho no centro da cidade e que o cara tinha aceitado ceder o lugar pra que os garotos pudessem se apresentar. Eles não seriam pagos por isso, mas era quase um show profissional. A oportunidade de tocar pra gente que fosse mais do que um bando de alunos do colegial parecia realmente boa e os garotos aceitaram na hora. E eles já tinham até ouvido falar do lugar, mas não o conheciam.
‘Opa, por mim tá fechado’ Arthur concordou. Seria bom dar uma passada no barzinho antes do dia do show, pra que a banda pudesse analisar o ambiente e também dar uma olhada no pessoal que costumava freqüentar lá. Mesmo porque Arthur não estava a fim de ficar sem fazer nada em casa.
‘Beleza. Vou ligar pro ferraz, daí ele passa na casa do Suede e os dois vão pra lá. Tu me leva, cara?’ Micael perguntou, acostumado com as caronas do amigo.
‘Na boa. Vou tomar um banho e te espero na garagem’ Arthur disse ‘Em meia hora estou lá embaixo’
‘Ok, a gente se vê daqui a meia hora então. Té mais!’
Arthur se despediu rapidamente e jogou o telefone em cima do sofá, correndo pra dentro do banheiro. Se não se apressasse acabaria chegando à garagem uma hora após do combinado. Depois do banho, quando terminou de calçar os tênis, Arthur saiu de casa. Assim que abriu a porta, além de sentir um delicioso e doce perfume invadi-lo quase por completo, ele viu a conta de luz que deveria ter sido entregue mais cedo no capacho em frente à porta. Ele pegou o envelope e o jogou em cima do sofá antes de trancar a porta e ir apertar o botão pra chamar o elevador, pensando que o porteiro devia ter se atrasado na entrega das correspondências.
‘Fico feliz em finalmente conhecê-lo’ Lua disse sorrindo pro moreno alto parado na sua frente ‘Sophia falou muito de você’ olhou pra prima, que segurava firmemente no braço dele.
‘Espero que bem’ o rapaz que tinha se apresentado como Michael sorriu. Lua sentiu uma estranha pena dele; o coitado mal podia imaginar que sua namorada vivia desconfiada que ele fosse homossexual.
‘Você acha que eu saio por aí difamando meu próprio namorado?’ Sophia perguntou num tom um pouco ofendido e muito convincente, olhando pra Michael, que balançou a cabeça negativamente e deu um beijo no queixo dela.
‘Bem, acho melhor nos sentarmos, não?’ Ana, que estivera apenas observando a cena ao lado de Mel, sugeriu.
‘Se encontrarmos uma mesa’ Mel ergueu os ombros olhando em volta.
Realmente, o Gas estava meio cheio. A maior parte da mesa estava ocupada por grupos de adolescentes e as cadeiras que estavam vazias no momento só tinham sido abandonadas daquele jeito porque seus ocupantes estavam lotando a pista de dança, que era agitada por músicas eletrônicas seqüenciais.
Lua estava percorrendo os olhos pelo lugar, o observando mais atentamente quando jurou ter visto rostos conhecidos num relance antes de ser puxada pra uma mesa. Ela olhou pra mão que estava em volta do seu braço e depois pra cima.
‘Eu ainda sei andar por conta própria’ disse e Mel a soltou.
‘Desculpe, achei que você não tinha ouvido quando Sophia a chamou pra que fossemos sentar’
Lua não respondeu nada, mesmo porque realmente não tinha ouvido a prima chamar pelo seu nome. Estivera mais ocupada analisando o ambiente e tentando reconhecer os rostos que vira perto da entrada do bar. Ela apenas copiou o gesto de Mel e sentou numa cadeira da mesa vaga mais próxima, onde os outros já tinham se acomodado.
‘O pessoal do colégio costuma vir aqui?’ Lua perguntou de repente, logo depois que Michael se levantou dizendo que precisava ir ao banheiro.
‘Bom, sempre tem alguém conhecido por aqui’ Ana disse ‘Por que a pergunta?’
‘Ah, não... nada... achei ter visto alguém, mas devo ter me enganado’
‘Francis costuma vir aqui às vezes’ Mel comentou como se não quisesse nada, mas o efeito foi quebrado quando Sophia lançou um olhar rápido pra prima. Lua riu. Francis era o moreno que tinha jogado seu charme nela no primeiro dia em que ela fora pro colégio, ou pelo menos tentado jogar seu charme.
‘Francis não faz muito meu tipo’ ela disse calmamente ‘Duncan me pareceu mais interessante’ concluiu no mesmo tom tranqüilo. Riu porque, dessa vez, as meninas não lhe lançaram apenas olhares, mas a encararam curiosíssimas.
‘Mas você nem falou com ele’ Sophia argumentou meio surpresa.
Era verdade. Enquanto Francis fora conversar todos os dias daquela semana com as garotas, às vezes acompanhado de um ruivinho chamado Stuart, o garoto que fora apontado como sendo Duncan ficara encostado numa das paredes do pátio com os outros garotos do time de futebol americano. Normalmente ele ficava observando enquanto Francis conversava descontraído com as garotas; os olhares de Lua já haviam se encontrado algumas vezes com os dele e ela tivera que reprimir o riso ao ver que o rapaz sempre parecia sem graça quando isso acontecia.
‘Nem por isso ele deixa de ser bonito, deixa?’ Lua viu as outras negarem com a cabeça na mesma hora. Duncan tinha cabelos loiros, olhos incrivelmente verdes, uma boca tentadora e um porte físico de dar inveja a qualquer outro garoto e, somando cada fator, ninguém podia simplesmente dizer que ele era feio.
‘Já vi que você tem bom gosto, sugar’ Ana deu uma piscadinha pra Lua, que recebeu um beliscão no braço que estava apoiado na mesa ao lado deMel.
‘Coisa de família, acredito eu’ Sophia disse toda convencida e as outras riram. Lua se levantou da cadeira.
‘Vou procurar o bar e pegar algo pra beber’ avisou.
‘Quer que eu vá junto?’ Mel ofereceu ‘Aqui está bem cheio e você não conhece o lugar direito’
‘Tranqüilo, eu me viro sozinha. Volto logo’ ela disse e saiu andando pro meio da pista, evitando esbarrar em muitas pessoas e tentando enxergar alguma coisa entre as pessoas que estavam ali. Na verdade, ela estava mais interessada em rever aqueles rostos que pensara já ter visto antes do que em encontrar o bar propriamente.
‘Acho que nós já ficamos parados o suficiente’ Rodrigo disse num tom entediado ‘Vamos procurar uma mesa’
‘Hey, acho que demos sorte!’ Chay exclamou apontando pra uma mesa que acabava de ser desocupada e não estava muito longe deles. Os quatro garotos apressaram o passo até lá, pra evitar que alguém chegasse antes, e se sentaram. Micael deu uma olhada em volta.
‘Público bom, ãh?’ disse quando percebeu que a pista de dança estava cheia.
‘Vê o palco ali?’ Arthur perguntou, apontando pra uma direção acima das cabeças das pessoas na pista. Os outros olharam.
Mais pro fundo estava um palco de tamanho considerável. Esta noite estava ocupado pelas pick-ups de um DJ que as controlava, mas no próximo sábado, se tudo desse realmente certo, estaria ocupado pelos instrumentos e pelos componentes do McFly.
‘Acho que vai ser legal’ Rodrigo comentou.
‘O dono daqui vai confirmar quando?’ Chay perguntou olhando pra Arthur.
‘No começo da semana que vem, foi o que o diretor me disse’ o outro respondeu.
‘Vamos tocar alguma coisa nova?’ Micael cruzou os braços em cima da mesa.
‘Seria bom porque alguém do colégio provavelmente vai estar aqui’ Arthur considerou.
‘Podíamos tocar uma que já tocamos no colégio e uma nova’ Chay sugeriu.
‘Eu acho que seria legal um cover também’ Rodrigo opinou ‘Uma música conhecida é bom pro pessoal entrar no clima’
‘É, acho que é uma boa mesmo’ Micael concordou com a cabeça ‘A gente começa com um cover, passa pra música nova e finaliza com uma antiga. O que acham?’
‘Por mim tá tudo certo, mas... alguém tem uma música nova?’ Arthur perguntou arqueando as sobrancelhas. Os outros negaram ‘Foi o que eu pensei’ e riu.
Rodrigo e Chay encolheram os ombros e começaram a discutir sobre um possível cover que seria bom de fazer. Micael chamou Arthur pra que eles fossem pegar umas bebidas e os dois saíram de perto da mesa. Arthur estava olhando distraidamente pros lados enquanto andava, observando as pessoas do local, quando viu uma imagem de alguém que parecia se destacar entre todo o resto do pessoal. Mais uma vez ela não reparava nele, mas o importante é que ele reparava nela e seria impossível deixar de reparar.
A garota estava lá, com o vestido preto bem soltinho, a franja presa no alto da cabeça deixava o rosto dela mais livre. Arthur achou que todo o ambiente estava ficando preto como o vestido dela e, por um instante, sentiu seu coração bater muito rápido, rápido até demais. O que ele mais queria era sair dali e ir abraçar a garota, mas não tinha condições de fazer isso graças às pernas que pareciam não querer sustentá-lo mais. Pra poder se manter em pé, ele segurou no ombro de Micael com força. Micael, que estava parado ao lado do amigo, esperando uma fila de pessoas sair da sua frente, olhou meio espantado pra Arthur.
‘Que foi cara?’ perguntou. Ao ver que o amigo estava com o olhar perdido, ele procurou ver o mesmo que Arthur estava vendo.
A garota continuava parada no mesmo lugar, então alguém passou na frente dela e ela sumiu. Mas houve tempo suficiente pra Micael vê-la e entender o porquê de Arthur parecer tão admirado.
‘Linda, pra variar’ Micael concluiu voltando a olhar pro amigo.
‘Era... era ela mesma?’ Arthur quase gaguejou, ainda olhando pro mesmo ponto ‘Ela estava aqui?’
‘Acredito que ela ainda está aqui, meu amigo’ Micael disse ‘Deve estar por aí com as amig...’ ele não terminou de falar. Se a garota que Arthur tanto admirava estava lá, então Sophia também devia estar. Muito provavelmente acompanhada pelo namorado, Micael acrescentou essa pequena nota ao seu pensamento.
‘Eu quero encontrá-la, Micael’ Arthur cortou o raciocínio do amigo ‘Eu preciso falar com ela, mostrar a ela que eu existo!’ ele exclamou com uma voz um tanto angustiada.
‘Olha cara, antes de você sair por aí procurando ela que nem um doido, vamos dar uma passada no bar. Você não me parece muito bem, melhor tomar alguma coisa e se acalmar’ Micael sugeriu e Arthur, mesmo parcialmente contrariado, concordou com a cabeça. Então os dois continuaram andando pelo caminho que estavam fazendo, Micael praticamente conduzindo Arthur que continuava segurando no ombro do amigo.
Quando chegaram no balcão do bar, Micael pediu dois Martinis e ficou aguardando enquanto o barman, que atendia mais meia dúzia de pessoas, fosse buscar as bebidas. Arthur sentou em um dos poucos banquinhos desocupados perto do balcão e respirou fundo, tentando organizar os pensamentos na sua cabeça. Ele sentiu um perfume doce no ar e pôde jurar pra si mesmo que já tinha sentido aquele cheiro antes, mas ele não se concentrou muito nisso. Estava mais empolgado com a visão da garota no meio das pessoas. Ele queria encontrá-la, queria falar com ela... Precisava falar com ela. Mas talvez fosse mais fácil tentar conversar com ela no colégio do que ali, naquele barzinho lotado. E a única coisa que ele precisava pra tomar essa atitude era inventar uma boa desculpa pra chegar nela ou tomar vergonha na cara e criar coragem pra correr atrás do que queria. E como queria!
‘Já ia sair pra te procurar’ Sophia estava sentando novamente quando Lua voltou à mesa com um copo de batida na mão.
‘Nossa, demorei tanto assim?’ Lua arqueou as sobrancelhas e sentou, dando um gole na sua bebida.
‘Achei que você soubesse o quanto a sua prima é desesperada’ Michael, que já tinha voltado à mesa, disse num tom brincalhão. Sophia lhe lançou um olhar descontente e ele fez bico ‘Estou brincando, amor’ disse e beijou a namorada na bochecha.
Lua tossiu, afastando o copo rapidamente da boca. Ela não pudera deixar de pensar que a expressão de Michael quando ele fez aquele bico fora realmente muito gay e precisou prender o riso, com isso acabou engasgando com a bebida. Sophia olhou preocupada pra ela.
‘Tudo bem, Lua?’ perguntou.
‘Tudo, só que... argh, desceu pelo lado... errado’ ela respondeu com a voz falha e lágrimas nos olhos por causa das tossidas.
‘Ah, isso sempre acontece comigo’ Michael comentou simplesmente ‘É um saco’
‘Hum... É’ Lua concordou e resolveu mudar de assunto antes que risse na cara do rapaz ao lembrar mais uma vez do motivo do engasgo ‘Bem... e cadê as outras?’ perguntou ao notar que as cadeiras de Ana e Mel estavam desocupadas.
‘Foram dançar’ Sophia disse ‘Você deveria ir também, Lua. Dançar é sempre bom e, quem sabe, você não encontra alguém interessante por aí?’
Lua teve uma repentina sensação que a prima estava interessada em se livrar dela pra poder ficar mais à vontade com o namorado, mas não teve tanta certeza disso quando viu Sophia lançar um olhar duvidoso a Michael quando este encarou demoradamente um rapaz magro que passou pela mesa deles. Lua deu uma olhada pra pista e pensou em ir dançar, mas o que viu a seguir não a animou muito: Ana e Mel estavam no meio da pista, acompanhadas de dois garotos que conversavam com elas ao pé do ouvido. Lua não estava a fim de ficar de vela nem na mesa com sua prima e o namorado nem na pista com Ana e Mel mais seus novos amigos. Ela também não estava muito a fim de dançar sozinha e muito menos de sair procurando alguém pra conversar. Então teve uma “idéia”.
‘Não estou com muita vontade de dançar agora. Aliás, estou me sentindo meio mal’ disse no tom mais convincente possível, fazendo uma pequena careta de enjôo.
‘Alguma coisa com a bebida?’ Sophia olhou pro copo de batida.
‘Ah não, acho que não. Na verdade eu já não estava me sentindo muito bem em casa, eu não devia ter vindo. Melhor eu ir embora...’ ela continuou encenando. Se sentia um pouco insatisfeita por ter que ir embora tão cedo, mas entre ficar abandonada em um lugar onde todos estavam se divertindo e ficar sozinha em sua casa, ela preferia mil vezes sua casa.
‘Se não se sente bem, isso é o melhor a fazer’ Michael disse ‘Quer que eu te leve?’
‘Não precisa se incomodar, Michael’ Lua se levantou e pegou a bolsa, deixando a sua bebida na mesa ‘Eu sei onde tem um ponto de táxi por aqui. As férias com a Sophia me ensinaram muitas coisas’
‘Quer que eu te acompanhe, prima? Se você está passando mal não é muito bom ficar sozinha’ Sophia fez menção de se levantar, mas Lua levantou a mão e ela se acomodou novamente.
‘Não quero estragar a noite de ninguém. Bom, mandem beijos à Ana e Mel por mim. Foi ótimo conhecê-lo, Michael’ ela sorriu pro rapaz, que retribuiu o sorriso, e então olhou pra prima ‘Nos vemos no colégio, Sophia’ mandou um beijinho no ar pra prima e deu meia volta, tomando rumo pra saída do Gas. Sophia viu a prima sumir entre as pessoas e olhou pra Michael. O rapaz apenas encolheu os ombros e beijou a namorada.
Micael olhou no relógio: era quase meia-noite, mas nem por isso ele deixou de seguir Arthur pelo barzinho que começava a se esvaziar pouco a pouco. Arthur não se importava com as horas, imaginava apenas que devia fazer cerca de meia hora que estava percorrendo todo e qualquer espaço do barzinho onde pudesse pisar, sempre com os olhos atentos, esperando ver uma linda garota de vestido preto aparecer na sua frente a qualquer momento.
‘Cara, já faz quarenta minutos’ Micael disse enquanto continuavam andando. Ele tinha insistido em acompanhar Arthur na busca, afinal tinha seus próprios interesses nisso ‘Nós já andamos pelo lugar inteiro. Olhe, eu juro que já vi aqueles dois ali’ ele apontou pra uma mesa onde um casal estava se beijando; era a terceira vez que ele via aquela cena e aquelas pessoas.
‘A gente já vai voltar pra mesa, espera só um segundo’ nos últimos quinze minutos, era isso que Arthur sempre repetia quando o amigo reclamava de alguma coisa.
Micael ia retrucar quando viu um vulto passar por ele apressadamente e sentiu uma dor no ombro. O vulto tinha batido nele ombro com ombro, foi o que concluiu quando ouviu uma reclamação aguda.
‘AI!’ a voz feminina exclamou.
Micael olhou pra pessoa que tinha quase o derrubado e ele achou que, mesmo sem ter batido em nada de novo, poderia cair no chão no momento em que encarou aquele rosto tão conhecido seu.
‘Foi mal’ Sophia passava a mão no próprio ombro e pareceu não reconhecer o garoto com quem trombara dias atrás no colégio. Ela se virou e já ia retomar seu caminho quando Micael teve um impulso. Era hora de ser homem.
‘O que você tem contra mim pra ficar me batendo toda hora, hein Abraao?’ ele perguntou de repente, tentando parecer o mais tranqüilo possível. Ao ouvir seu sobrenome, Sophia virou pra ele de novo e o encarou por um tempo. Depois de alguns minutos, que pareceram vários anos pra Micael, a garota riu.
‘Não te reconheci... mas, enfim, não é nada contra você’ ela disse como se já o conhecesse e não como se nunca tivesse trocado nenhuma palavra com o garoto cujo nome ela nem sabia ‘Desculpe, estou um pouco apressada. Até mais’ ela acenou e saiu dali rapidamente, indo na direção do bar.
Micael levou um tempo até assimilar as informações. Ele mal podia acreditar que Sophia tinha falado com ele. Sophia Abraao, céus! Não interessava se ela ainda não sabia o nome dele, mas pelo menos eles tinham trocado mais que duas palavras e isso era um progresso considerável. QuandoMicael finalmente entendeu o que tinha acontecido, ele sorriu sozinho e saiu andando pra procurar Arthur, que nesse meio tempo tinha se afastado dali. Mas Arthur o encontrou primeiro.
‘Ela não está mais aqui’ Arthur disse quando Micael olhou pra ele ‘Eu achei a mesa onde as amigas dela estão, mas ela não está lá. Quem fazia companhia pras garotas era o tal Michael, mas nem me pergunte sobre a Sophia porque não vi nem sinal dela. As duas devem ter ido embora juntas’
‘Sophia ainda está aqui’ Micael disse e Arthur franziu a testa ‘Eu acabei de esbarrar nela e... e eu falei com ela!’ ele sorriu encantado. Arthur balançou a cabeça.
‘Eu queria ter a sua sorte, meu amigo’
‘Bom, não foi nada realmente pra eu me gabar, mas pelo menos não foi só um “Foi mal” dessa vez’ Micael levantou as sobrancelhas e segurou no ombro do amigo ‘Vamos cara, vamos voltar pra mesa. O Rodrigo e o Chay devem estar reclamando da nossa demora, se é que já não foram embora’
‘Eu não vou ficar aqui por muito tempo, Micael’ Arthur avisou ‘Estou meio cansado, acho melhor voltar pra casa’
‘Ok, eu vou contigo. Vamos só falar com os outros dois então nós vamos embora’
Arthur concordou com a cabeça e saiu andando atrás de Micael, refazendo o caminho até a mesa onde estavam sentados com os amigos antes.



















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