Cap. 1
O corredor de cimento entre os prédios era extenso e largo. Prédios de um lado, uma rampa, alguns outros prédios, um corredor largo e extenso, mais prédios do outro lado – só que num nível elevado. Assim era formado o condomínio. Numa das pontas do corredor havia uma escada de tijolos rústicos pra um dos prédios; na outra ponta, uma escada de ardósia pros prédios elevados, escondida por entre os muros. Arthur estava sentado com Micael na escada de tijolos. Os dois eram “vizinhos” desde que se conheciam por gente; Arthur morava sozinho há um ano e pouco e Micael ainda morava com os pais.
‘Cara, estou te falando. Eu vi ontem’ Micael insistiu na história que tinha contado pro outro.‘Você pirou, dude. Eu não vi nada’ Arthur abanou a mão no ar.
‘Você passou o dia todo fora de casa ontem, nem se quisesse teria visto alguma coisa. E eu pirei coisa nenhuma! Concordo que ela até parecia miragem de tão bonita, mas era de verdade. Eu vi quando ela desceu do carro e... ’
‘E ajudou na mudança. Depois ela sumiu nas garagens e não apareceu mais’ Arthur completou a narrativa ‘Cara, ela devia ser só uma conhecida dos novos moradores. Ela não deve ter se mudado pra cá... isso se ela existe mesmo’
‘Eu quero só ver. Quero só ver se você encontrar com a garota no elevador quando estiver indo pro colégio. Daí você vem me dizer quem é o pirado aqui’ Micael disse com ar superior.
Arthur apoiou os cotovelos no degrau de cima e olhou pro lado com os olhos cerrados por causa do sol; olhou pro portão no fim da rampa de carros que dava acesso ao corredor.
Um carro entrou pelo portão e virou pro outro corredor que tinha lá embaixo. Sob os prédios ficavam as garagens e as entradas pros blocos de apartamentos. Eram três blocos na parte onde Arthur morava, um prédio pra cada bloco. Micael morava num prédio por onde se chegava subindo a escada de tijolos.
‘Duvido que essa garota exista mesmo’ Arthur disse do nada, ainda olhando pro lado ‘Você está inventando tudo isso pra me impressionar, Borges’ concluiu rindo. Micael rolou os olhos e olhou pro fim do corredor.
Então ela apareceu. Tinha acabado de descer as escadas de ardósia e estava virando no corredor. Parecia mais bonita do que quando ele a vira pela primeira vez. Estava de bermuda jeans, all star, uma blusinha preta e óculos escuros. Ela olhava pro lado, pros carros na garagem, e pareceu nem notar que Micael, sentado na escada na outra ponta do corredor, estava a observando descaradamente. O garoto levou um tempo pra se recuperar do choque, então cutucou Arthur no braço.
‘Tem certeza que ela não existe? Porque ela me parece bem real agora’ ele falou baixo.
‘O que disse?’ Arthur perguntou e ia olhar pro amigo, mas deteve a cabeça no meio do caminho quando seu olhar encontrou a garota que andava no meio do corredor.
Ela estava se aproximando e Arthur podia ver cada passo que ela dava em câmera lenta. Os cabelos dela, amarrados num rabo de cavalo, balançavam continuamente atrás da cabeça e os braços se moviam levemente ao lado do corpo. Arthur engoliu em seco, tamanha a beleza da garota, e sentiu uma sensação estranha e engraçada no estômago acompanhada de uma palpitação acelerada do coração. Ele quase não conseguia acreditar que aquela garota era real, e o mais interessante é que ali, em carne e osso, ela parecia muito mais bonita do que segundo a descrição deMicael. Então, de repente, foi como se o tempo voltasse a correr normalmente quando a garota pegou um molho de chaves no bolso da calça e virou numa parte do corredor. Ela sumiu atrás de uma das pilastras da garagem e a última coisa que os dois garotos viram foi um relance dela abrindo a porta pra salinha de recepção onde ficavam os elevadores e as escadas do bloco um. O bloco de Arthur.
‘Não...’ Arthur disse lentamente. Micael olhou pro amigo e riu da cara de bobo dele.
‘Então eu sou pirado, não sou?’ perguntou ainda rindo.
‘Cara, não dá pra acreditar numa coisa dessas... ela é linda demais! E mora no meu prédio, no meu prédio!’ ele exclamou sem esconder a alegria ansiosa que estava sentindo.
‘Da próxima vez não desconfia de mim, valeu?! Eu não costumo mentir quando falo de uma beldade desse tipo’
‘Mas você mentiu sim. Você disse que ela era bonita, não linda desse jeito. Ela parece mesmo de mentira, dude’
‘Ih, deslumbrou’ Micael balançou a cabeça e riu.
‘Não estou deslumbrado, mas não vejo mal algum em tentar ser um vizinho mais amigável e simpático’ ele fez cara feia pro amigo e levantou do degrau.
‘Eu não quero nem ver onde isso vai parar’ Micael também levantou.
‘Cala a boca, idiota. O que tem de mais eu querer conhecer a menina? Vai dizer que você também não quer?!’ Arthur arqueou uma sobrancelha.
‘Me deixa fora disso, ok? Concordo que ela é linda e parece realmente incrível, mas é bom não criar muita expectativa’
‘Olha quem fala! Quem estava aqui há minutos atrás, tagarelando sem parar sobre uma tal garota que tinha visto ontem era você, meu caro. Se alguém aqui criou alguma expectativa esse alguém não fui eu’ Arthur disse começando a se indignar com o que o amigo dizia ‘E o que quer dizer com “é bom não criar muita expectativa”?’
‘Ué, quero dizer isso mesmo, que não é bom criar muita expectativa. A garota pode ter namorado ou sei lá... vai que ela é lésbica’ ele encolheu os ombros e outro fez uma careta. Os dois começaram a rir.
‘Sinceramente, menos pior ela ter namorado do que ser lésbica’ Arthur disse ‘No namorado a gente pode dar um jeito, mas ia ser complicado reverter a opção sexual dela’
‘Bem complicado’
‘Mas enfim, eu não estou tão interessado assim nela’ ele disse e recebeu um olhar incrédulo de Micael ‘Certo, estou bem interessado’ Micael riu ‘mas também não vou sair correndo atrás da garota logo de cara’
‘Vai com calma, dude. Ela pode não ser tuuudo isso que parece’ Micael alertou ‘Depois eu não quero ver amigo meu se lamentando por aí’
‘Acredite em mim, Borges, eu não vou me lamentar’ Arthur disse muito seguro de si ‘E você bem sabe que eu sou um cara paciente’
‘Não sei de nada e não quero saber. Você que se vire sozinho com a sua deusa’ Micael deu de ombros ‘Minha opinião se resume a beleza dela, só’
‘Ah, fica quieto’ ele riu.
‘Bom, boa sorte pra você. Agora eu tenho que ir pra casa’
‘A gente se vê, dude’ ele ergueu a mão num aceno e desceu o resto da escada enquanto Micael subia pra ir pro seu prédio.
Arthur abriu a mesma porta que a garota tinha aberto minutos atrás e apertou o botão do elevador, que não demorou a chegar. Ele morava no quinto andar, apartamento 18. Em cada andar havia quatro apartamentos, os dois elevadores e mais duas escadas. Arthur recebera o apartamento dos pais quando completou dezesseis anos. Quando fez dezessete, Arthur ganhou um carro. Toda manhã, ele ia de carro pro colégio que ficava a uns quinze minutos de casa. Fora isso, a única coisa que ele fazia era tocar pra frente uma banda que tinha com os amigos.
No capacho em frente à porta do apartamento, Arthur encontrou um envelope amarelo. Ele já até sabia o que tinha ali: era o dinheiro enviado pelos pais, que agora moravam no centro da cidade. O que eles mandavam era suficiente pro filho pagar as contas, gastar no que fosse necessário e no desnecessário também. Arthur entrou no apartamento, jogou o envelope em cima da mesa de jantar da sala e deitou no sofá, ligando a televisão.
Era domingo, não havia muito que fazer além de morgar. Morgar e... Pensar. Pensar na garota que ele tinha visto, pensar no quanto ela era bonita, pensar que talvez ela estivesse mais próxima do que ele podia imaginar. E se ela estivesse no apartamento do lado, ou no da frente? Arthur sentou no sofá e quase foi até a porta. Então ele riu e deitou novamente. Mesmo que ela estivesse em um dos dois apartamentos, o que ele poderia fazer no momento? Nada. Só podia esperar uma oportunidade pra descobrir onde a garota estava morando e pra conhecê-la também. Era isso, esperar. E pensar mais um pouco.
Lua terminou de arrumar as roupas no novo armário e parou pra olhar o quarto. Não era tão grande quanto o quarto que tinha na sua antiga casa, mas era aconchegante e agradável exatamente pelo seu tamanho mediano. Na verdade, o novo apartamento não era dos maiores que ela já tinha visto, mas era um ótimo lugar pra morar. A sala era ampla e a cozinha também, havia duas suítes, um lavabo e uma lavanderia pequena acoplada na cozinha. Lua sentou na ponta da cama e ficou rodeando o quarto com os olhos. Seu olhar se demorou num mural de metal, onde ela mesma, no dia anterior, tinha afixado com imãs algumas fotos. Fotos de quando era pequena e morava no Brasil, das amigas de lá. Fotos de quando se mudou pra Nova Iorque, quando morou em Miami, em Barcelona, em Paris, fotos das férias na Itália, na Grécia e na terra natal. Agora ela estava na Inglaterra. Não era um lugar muito desconhecido porque ela já passara dois meses lá, de férias na casa da prima, e graças a isso conseguia se localizar e passear tranqüilamente sem se perder pela pequena cidade onde estava morando agora. A única pessoa com quem podia contar por lá era exatamente sua prima, Sophia, que saíra do Brasil e se mudara pra lá há cinco anos.
Sim, a prima era a única com quem poderia contar, afinal os pais de Lua nem paravam em casa direito. Eles eram diretores de uma importante empresa multinacional, por isso tinham saído do Brasil dez anos depois que a filha nasceu e, nos sete anos seguintes, se mudaram pra vários lugares diferentes. Tinham que se mudar pro lugar onde eram solicitados e acabavam levando a filha junto. Lua nunca gostou muito da profissão dos pais. Primeiro porque realmente gostava do Brasil, país onde havia nascido; segundo porque nunca tinha tempo suficiente pra arranjar um grupo verdadeiro de amigos nos países onde ficava, devido ao pouco tempo que permanecia no mesmo lugar; e terceiro porque seus pais nunca tinham tempo pra ela. Lua era filha única e ganhara tudo o que pedira na vida, mas não tinha o que realmente queria: uns minutos de atenção dos pais. Mas ela já estava acostumada com isso, dezessete anos vivendo assim foi tempo suficiente pra fazê-la se conformar com a ausência deles.
Lua sentou na cama e suspirou, passando a mão na colcha e pensando no dia seguinte, quando começaria a estudar no colégio mais próximo de sua nova casa. Ia entrar no meio de Abril, mas ela também já estava acostumada com isso. Com as mudanças freqüentes, Lua sempre estava trocando de colégio também. O segundo ano, por exemplo, ela tinha começado em Barcelona e concluído em Madrid, onde começara o terceiro, que tentaria concluir agora na Inglaterra. Se bem que Lua não acreditava que ficaria tempo suficiente na Inglaterra a tempo de concluir aquele ano de estudo. Seria mais capaz que se mudasse nas férias de julho e concluísse o terceiro ano na Holanda, ou no Canadá. Quem sabe na China ou na Índia. Lua riu pensando em si mesma vestindo as roupas típicas das mulheres indianas; seria algo cômico.
Mas, bem no fundo, ela não via nada de cômico ou divertido na sua vida. O que queria mesmo era ficar em um lugar só, onde poderia ter amigos verdadeiros como tinha no Brasil, onde poderia terminar seus estudos e fazer uma boa faculdade. Aquela sim parecia uma realidade na qual onde ela seria feliz por completo.
‘Quem sabe um dia...’ Lua disse, tentando não tirar de si mesma as poucas esperanças que tinha. Ela balançou a cabeça, rindo ironicamente dos seus pensamentos, e deitou na cama. Ficou apenas encarando o teto iluminado pela luz do sol que vinha da janela, concluindo afinal que sua vida não passava de uma inconstante sem fim.


















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