Capítulo 3
A primeira coisa que eu vi quando cruzei a porta da minha casa foi o caixão branco, que agora continha o corpo da minha mãe, me aproximei e por incrível que pareça eu não chorei, olhei para o seu rosto, tão bonito que nem a morte conseguiu modificar os seus traços, ali extremamente pálida e, incrivelmente, estava com uma expressão serena no rosto, consegui sorrir de leve quando eu me abaixei e beijei a testa da minha mãe com todo carinho.
Não me lembro de muita coisa depois disso, meus olhos estavam turvos pelas lágrimas que enfim chegaram e minha mente estava desligada do meu corpo eu não estava controlando as minhas ações a última coisa de que me lembro é de estar no cemitério olhando o caixão ser colocado no buraco e eu senti o cheiro inconfundível de terra molhada quando começou a chover de leve, lavando as lágrimas que desciam incontroláveis pelo meu rosto. Sop veio me abraçar e só ai eu percebi que ela estava lá, como sempre, ela nunca pôde me proteger das coisas ruins, mas sempre estava lá me ajudando a colar os pedaços do que restava do meu coração.
Os meninos vieram me cumprimentar e eu abracei cada um deles, Arthur sentou ao meu lado e segurou a minha mão sem falar nada.
O enterro foi bem rápido e quando terminou Sop, Micael e Arthur me levaram para casa.
- Tchau Luinha, se cuida, mais tarde eu te ligo, ok?
- Ok Micael, muito obrigada.
- Amiga você tem certeza de que não quer que eu fique com você?
- Tenho sim Sop, não se preocupe, eu vou ficar bem.
- Eu não vou te deixar sozinha . - Arthur desceu do carro.
- Não precisa ficar Arthur, sério mesmo.
- Você nunca vai mudar né, teimosa como sempre. Bom Micael, você pode ir cara, deixa que eu cuido da Luinha.
- Ok dude, tchau. - E ele arrancou com o carro.
- Enfim sós. - Arthur falou me fazendo sorrir de leve. - Vem Luinha vou preparar um chocolate quente pra gente. - Ele pegou em minha mão e me levou para dentro de casa.
Eu fiquei olhando enquanto Arthur se movimentava na cozinha como se fizesse parte daquele lugar. Ele trouxe o chocolate quente e sentou ao meu lado na mesa, pegando minha mão. Eu já tinha me esquecido da sensação daquele simples toque e de como era bom.
- Você está bem mesmo, linda?
- Eu acho que quando esse tipo de coisa acontece na nossa vida, nunca dá para “ficar bem”, mas eu espero que com o tempo fique mais fácil pensar que ela nunca mais vai voltar.
- Ela está bem onde quer que ela esteja e isso é o que importa. - Ele sorriu para mim me encarando e aproximando o rosto do meu e eu não pude resistir, quando ele estava quase encostando os lábios nos meus recuou, assustado.
- Me desculpa Luinha, não sei o que deu em mim. - Eu fiquei muda, sem esboçar nenhum tipo de reação e nessa hora o celular do Arthur tocou.
- Alô? Ah... Oi Susie, eu já estou indo para casa, ok? Beijos, tchau, também estou com saudades. - Ele estava vermelho quando olhou para mim. – Tenho que ir Luinha, amanhã a gente se vê.
- Quem é Susie Arthur? - Senti uma pontada enorme de ciúmes e eu não sei de onde eu tirei essa pergunta idiota, mas quando dei por mim já tinha falado.
- É a minha namorada.
- Nossa, que bom que você já arrumou alguém, e parece que você a ama bastante. – Falei com ironia.
- Por que você está falando assim comigo Luinha? Foi você que foi embora de Londres, levando o meu coração com você, eu não queria que tivesse acabado, eu te amava muito e você me traiu, por que você fez aquilo? Se não me queria mais você pelo menos deveria ter tido a dignidade de me falar antes de dormir com o primeiro que aparecesse. – Eu vi a magoa em seus olhos.
- Quem falou que eu te traí, Arthur?
- O seu amante Luinha, o Peter! - Arthur falou com ódio, cuspindo as palavras.
Só de ouvir aquele nome eu gelei dos pés a cabeça, não acreditava que aquele desgraçado, depois de tudo, ainda teve coragem de mentir para o Arthur, eu tentei ficar calma e quando consegui me controlar perguntei:
- Como você pode ter certeza de que ele estava falando a verdade?
- Por que ele me mostrou a sua calcinha branca de coraçãozinho, aquela que você estava usando naquele dia que a gente foi pro parque e o vento levantou o seu vestido, lembra? Ele me falou que você tinha dado para ele de recordação pela noite maravilhosa que vocês tiveram e quando eu vim te pedir uma explicação você nem ao menos quis falar comigo e foi embora para o Brasil dois dias depois, me deixando para trás como seu eu não importasse e o amor da gente não valesse nada. - Quando terminou de desabafar, ele estava com os olhos cheios de lágrimas. – Você sabe quantas noites eu chorei pensando em você ? A cada vez que eu te ligava e você não me atendia eu morria por dentro, isso me corroeu como um veneno e logo agora, quando eu estou refazendo a minha vida, você volta e acaba com tudo o que eu conquistei, eu queria muito poder te odiar pelo que você me fez, mas eu não consigo. - Ele saiu batendo a porta sem nem me dar tempo de falar alguma coisa.
- Me desculpa por não ser a pessoa certa pra você Arthur, mas eu te amo mais do que você imagina. - Eu falei baixinho olhando para a porta fechada e as lágrimas que eu segurei durante tanto tempo finalmente começaram a cair livremente.



















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