Cap. 19
A cabeça dele latejava mais e mais conforme a campainha tocava. Ele se revirou no sofá e colocou uma almofada em cima da cabeça, tentando abafar o som, mas não obteve sucesso. O som continuava alto e a cabeça insistia em latejar. Ele levantou do sofá e foi atender a porta, cambaleando sonolento e trôpego.
‘E aí cara, como é que tá?’ Micael perguntou assim que a porta foi aberta.
‘O que você acha?’ Arthur disse grosseiramente e voltou a se jogar no sofá, colocando a almofada sobre a cabeça mais uma vez. Micael encostou a porta e sentou no outro sofá. Viu algumas garrafas de cerveja espalhadas pelo chão e entendeu o que havia acontecido desde que o amigo voltara pra casa.
‘Tomar um porre não vai te ajudar a conquistar a Lua’ disse seriamente. Arthur mexeu as pernas no sofá, mas não disse nada ‘Ela está com o Duncan, aceite isso’
‘Eu não vou aceitar!’ Arthur respondeu alto e devagar. Sentiu uma pontada forte na cabeça e diminuiu um pouco a voz ‘E, mesmo que ela esteja com ele, os dois não precisam ficar se agarrando na minha frente’
‘Eles estavam apenas se beijando, nada mais normal. E porque ela haveria de se esconder de todo mundo quando vai ficar com ele? Cara, ela não sabe que você gosta dela, não vai ficar escondendo de você o fato de estar gostando de outro’
‘Ela não gosta dele’ Arthur resmungou ‘Só estão juntos porque...’
‘Porque se gostam e ponto final’ Micael disse logo ‘O quê? Vai dizer que ela só está com ele porque não teve outra escolha?!’
‘Ela teria escolhido a mim se soubesse o quanto eu gosto dela’ ele afirmou tentando se mostrar confiante.
‘Se você tem tanta certeza disso, por que não conta logo pra Lua que gosta dela?’ Micael perguntou cansado daquele drama todo que o amigo estava fazendo.
‘Vai embora, minha cabeça está doendo’ Arthur tentou mudar de assunto.
‘Há, que beleza, nem você sabe por que não conta pra ela de uma vez’ Micael riu irônico.
‘Eu não preciso contar, uma hora ou outra ela vai saber’ ele virou de barriga pra cima no sofá e tirou a almofada de cima da cabeça ‘Não sei como ela ainda não descobriu, está tão na cara...’
‘Pode estar na cara pra quem sabe que você gosta dela, mas você tem que entender que a Lua te considera só um amigo, nada mais. Ela nunca vai descobrir que o seu sentimento por ela é diferente se tudo continuar do jeito em que está’ Micael explicou recuperando um pouco a paciência.
‘Nada vai mudar até que ela descubra, assunto encerrado’ ele disse e fechou os olhos ‘Caso você não tenha mais nada pra dizer, pode ir embora. Eu ainda quero dormir’
‘Se é assim que você prefere’ Micael ergueu os ombros e levantou do sofá ‘De qualquer jeito, já sabe não é? Precisando de ajuda, estamos aí’ disse e saiu do apartamento do amigo.
Arthur virou no sofá, escondendo o rosto da luz, numa tentativa de voltar a dormir, mas não passou nem cinco minutos que Micael foi embora e a campainha tocou novamente.
‘Você sabe que está aberta, Borges!’ ele falou alto, ainda de olhos fechados, deduzindo que Micael provavelmente tinha voltado pra lhe passar mais algum sermão.
‘Encontrei com Micael no corredor e ele me disse que você não estava de bom humor’ uma voz conhecida disse calmamente. Arthur abriu os olhos e olhou pra porta. Lua acabara de entrar no apartamento ‘mas eu resolvi passar aqui assim mesmo’
‘O que veio fazer aqui?’ ele seguiu a garota com o olhar, vendo-a sentar no mesmo lugar onde Micael estivera minutos atrás.
‘Digamos que eu estranhei o modo como você foi embora do Gas ontem, então, como eu sou muito curiosa, decidi vir ver o que tinha acontecido mesmo’ ela respondeu de um jeito engraçado. Arthur se segurou pra não rir. Não estava disposto a voltar a tratá-la com simpatia tão rapidamente ‘Micael disse que você estava cansado por causa do show e que também não estava se sentindo muito bem, mas eu acho que se fosse esse o real motivo de você ter ido embora de repente, você teria avisado pra mais gente, e não só pro Micael’ ela apoiou os cotovelos nos joelhos e deu uma olhada pelo chão da sala ‘Hum, você não estava se sentindo muito bem no Gas, mas pelo jeito se sentiu muito bem aqui. Pelo menos bem o suficiente pra esvaziar algumas garrafas de cerveja’
‘Parabéns, você ganhou’ Arthur disse sarcasticamente e sentou no sofá, se sentindo tonto pela velocidade com que fizera isso. A garota olhou pra ele ‘Eu menti, fui embora ontem porque não estava mais a fim de continuar no Gas. Contente?’
‘Se esse fosse o motivo, Micael não teria mentido no seu lugar. Ele teria simplesmente dito que você queria ir pra casa’ ela concluiu inteligentemente. Ele franziu a testa.
‘Eu tinha os meus motivos, você não precisa saber quais eram eles’ disse num tom mal educado. Lua se espantou um pouco com a atitude dele, mas resolveu dar um desconto, afinal ele tinha bebido.
‘Bem, eu sou sua amiga, mas você não é obrigado a me contar tudo se não quiser’ ela levantou do sofá e foi pra cozinha. Arthur a seguiu, com a cara fechada.
‘O que pensa que vai fazer?’ ele perguntou ao vê-la abrir um armário.
‘Você tem chá?’ ela fechou o armário e abriu outro ‘É bom beber um pouco de chá quente quando se está de ressaca. Teve mais efeito pra mim do que uma xícara de café amargo’
‘Eu não quero beber chá. Quero ficar sozinho na minha casa e dormir sem ninguém pra me perturbar ou mexer nos meus armários’ ele não estava gostando de tratá-la mal daquele jeito, mas, de certa forma, ela merecia... Pelo menos no seu ponto de vista.
‘Não, acho que você não tem chá’ Lua fechou um outro armário e se virou pro garoto ‘Quer dormir? Vá dormir então. Vou dar um pulo no mercado, comprar um chá e volto daqui a pouco. E eu agradeceria muito se você não trancasse a porta’ e saiu da cozinha.
Arthur ouviu a porta de entrada bater levemente e foi pra sala. Mal podia acreditar que Lua estava ignorando completamente os maus modos dele e fazendo o possível pra ajudá-lo. Aquela garota realmente não existia. Sentindo a consciência pesar um pouco, Arthur resolveu deixar a porta destrancada e foi pro quarto. Jogou-se na cama depois de tirar a camisa, sem pique nem pra fechar as cortinas. O relógio em cima criado-mudo marcava dez e meia da manhã. Assim que Lua voltasse, ele poderia acordar e, quem sabe até mesmo, pedir desculpas.
Ele ouviu barulho de vidro batendo e levantou a cabeça. O quarto estava escuro e a única claridade era a de um mínimo facho de luz que vinha de uma fresta aberta da porta. Arthur desenrolou o cobertor das pernas e saiu do quarto. Encontrou Lua na sala, recolhendo as garrafas vazias de cerveja que ele tinha deixado espalhadas pelo chão.
‘Seu chá está no microondas’ ela pegou uma última garrafa e olhou pro garoto ‘Eu fechei as cortinas do seu quarto pra claridade não te incomodar, espero que não tenha problema’ disse. Arthur negou com a cabeça, sentindo pequenas pontadas na nuca, mas não se importou ‘Vou só colocar essas garrafas no lixo e já estou saindo, não se preocupe’
‘Ah, não... não precisa ir embora’ ele se colocou na frente da garota quando ela ia pra cozinha ‘a não ser que você queira, claro’
‘Eu não quero te incomodar, só isso. Você mesmo disse que queria ficar sozinho, sem ninguém pra te perturbar. Pois bem, acho que eu já fiz o que podia, então melhor eu ir embora’ ela disse humildemente, se desviando dele e entrando na cozinha.
‘Olha’ ele se escorou no batente da porta da cozinha ‘eu não queria ter te tratado daquele jeito. Eu...’
‘Você estava alterado por causa da bebida, entendo’ ela deixou as garrafas numa sacola ao lado do lixo e olhou pra Arthur. O garoto estava com os cabelos bagunçados, sem camisa e com o aspecto de quem não dormia a uma semana inteira. Apesar de gostar dos cabelos dele bagunçados, Lua achou que aquela chegava a ser uma cena deprimente.
Ele coçou a cabeça e achou melhor deixar tudo como estava. Se ela entendia daquele jeito, ele não ia dizer que, além da ressaca, havia outro motivo pra tê-la tratado tão mal.
‘É, foi isso. Eu nunca fico de bom humor quando estou de ressaca’ ele confirmou ‘Você só está tentando me ajudar e, sinceramente, eu não acho que esteja merecendo a sua ajuda’ ainda tinha mais pra dizer, mas emudeceu ao ver a garota se aproximando dele. Não, ela não ia fazer o que ele pensava... Ia? Lua parou na frente dele. O menino engoliu em seco e passou a mão pelos cabelos, nervoso.
‘Você não está com uma aparência muito boa. Acho melhor você beber o seu chá e dormir mais um pouco’ ela disse segurando no ombro dele e sorriu. O toque dela causou um arrepio nas costas dele ‘Amanhã nós conversamos’ e saiu da cozinha. Arthur ficou parado no mesmo lugar por uns segundos, então, quando ouviu a porta de entrada abrindo, foi até a sala. Lua estava prestes a sair do apartamento.
‘Fica e me faz companhia?’ ele perguntou. A garota olhou pra ele, que ficou sem graça e mordeu a boca. Lua mexeu a cabeça um pouco pro lado, olhou pro corredor do prédio e depois pro garoto. Ela balançou a cabeça, rindo, e encostou a porta.
‘Gosta de torradas?’ perguntou. Arthur apenas sorriu com o canto da boca e os dois foram pra cozinha.


















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