Cap. 17
Na semana seguinte, na sexta-feira, exatamente às oito horas da noite, a campainha do apartamento de Lua tocou. Ela abriu a porta já sabendo quem encontraria ali.
‘Boa noite, Arthur’ ela sorriu e ele fez o mesmo ‘Espera só um minuto, preciso colocar os sapatos e pegar minha bolsa. Já volto’ avisou e foi pra dentro do quarto de novo, deixando a porta de casa aberta, caso o garoto quisesse entrar.
Arthur deu uma espiada dentro do apartamento. A sala era quase igual à dele, fora o fato de que estava mais arrumada. Ele viu mais duas portas e deduziu que fossem dar na cozinha e no lavabo. Um corredor curto levava até os quartos, como no seu próprio apartamento. Arthur encostou-se ao batente da porta e ficou esperando até que Lua voltasse, o que não demorou mais que cinco minutos.
‘Pronto’ a garota apareceu novamente e saiu de casa ‘E o Micael?’
‘Deve estar na garagem, esperando pela gente’ Arthur respondeu apertando o botão do elevador enquanto Lua trancava a porta.
‘Depois vamos buscar a Sophia?’ ela perguntou e ele assentiu com a cabeça ‘Certo. Bem, espero que o filme seja bom, não estou a fim de sair nesse frio à toa’ disse vestindo uma jaqueta jeans pra combater o vento forte da rua.
‘Você não vai sair à toa’ Arthur disse abrindo a porta do elevador. Lua entrou e ele a seguiu ‘É por uma boa causa’ ele apertou o botão da garagem.
‘Borges vai ficar me devendo essa’ ela disse e os dois riram.
Cinco minutos antes do filme começar, quando todos já estavam em silêncio dentro da sala de cinema, Arthur resolveu que queria comer pipoca. Lua achou que seria uma boa ir junto com ele, assim deixaria Micael e Sophia sozinhos por alguns minutos. Ela pediu pra prima dar um toque no seu celular caso o filme começasse e ela e Arthur não tivessem voltado com as pipocas. Agora já fazia quase quinze minutos que Lua estava fora da sala de cinema e ela começava a achar que ninguém daria toque nenhum no seu celular.
‘Arthur, esquece as pipocas’ Lua pediu pro garoto que estava na fila extensa ao seu lado. Como era estréia do filme, o cinema estava cheio e parecia até que todas as pessoas que iriam ver a próxima sessão tinham decidido comprar pipoca justamente naquela hora.
‘Nós já estamos na metade da fila, Lua. Não custa nada esperar mais um pouco’ Arthur disse tranqüilo.
‘O filme já deve ter começado...’
‘Quem se importa?’ ele perguntou baixo, pra si mesmo, despreocupado com o filme.
‘... E a safada da Sophia nem me ligou’ ela continuou a falar, ignorando o garoto e olhando no celular mais uma vez pra ver se não tinha mesmo nenhuma chamada perdida.
‘Ela deve estar ocupada com outra coisa’ ele disse mais alto. Lua riu.
‘Foi por isso que você quis comprar pipocas, não foi? Pra deixá-los sozinhos’
‘Exato, e também foi por isso que você veio comigo’ Arthur disse sorrindo.
‘Você é esperto’ ela disse balançando a cabeça e ele riu ‘não tem como negar’
‘Eu sei das coisas, babe’
‘Só não seja tão pretensioso, por favor’ ela pediu rindo. Arthur apenas encolheu os ombros e os dois deram um passo à frente quando a fila andou um pouco ‘Já vi que vamos perder o filme’
‘Nós não seremos os únicos’ ele disse ‘ou acha que aqueles dois lá dentro estão realmente vendo o filme?’
‘Se o Borges foi esperto uma vez na vida e tomou alguma atitude, acho que não’ ela respondeu e sentiu o celular no bolso da calça jeans vibrar ‘Epa, será que a Sophia lembrou que nós existimos?’ ela riu e pegou o celular. Estava escrito “Duncan” no visor e ela achou estranho, mas atendeu ‘Alô’
‘Hey docinho, como está?’ a voz grossa de Duncan perguntou do outro lado.
‘Bem, e você?’ ela viu Arthur franzir a testa ao ouvir aquilo e tampou o bocal do celular ‘Não é a Sophia’ sussurrou e destampou o bocal quando ouviu Duncan falando.
‘Bem também. Nem falei com você direito no colégio esses dias, já estava ficando com saudade’ ele disse de uma forma carinhosa, o que fez Lua sorrir ‘Então, estava pensando, não quer sair comigo hoje à noite? Eu sei que está meio frio, mas a gente podia ir tomar um café, o que acha?’
‘Seria ótimo, mas hoje eu não vou poder. Acontece que eu nem estou em casa, vim no cinema com a minha prima. Só atendi o celular porque estou no banheiro’
Arthur franziu a testa ao ouvi-la mentindo. Primeiro ela dissera pra pessoa com quem conversava ao telefone que tinha ido ao cinema apenas com a prima, agora mentia sobre estar no banheiro e não na fila da pipoca. E pelo jeito a pessoa devia ter convidado ela pra sair, foi isso que Arthur concluiu ao ouvir “Seria ótimo, mas hoje eu não vou poder”. Afinal, com quem ela estava falando?
‘Poxa, que pena’ Duncan disse pra ela, num tom meio chateado ‘Bom, então que tal amanhã à noite?’
‘Por mim tudo bem’ Lua concordou contente.
‘Ótimo. Nos vemos amanhã então, docinho’
‘Ok, até lá. Beijos’ ela se despedia e riu ‘Pode deixar. Boa noite, Duncan’ e desligou.
Arthur evitou olhar pra ela. Não gostou de ouvir o nome “Duncan” quando ela desligou. Não queria que ela falasse mais com ele, muito menos que saísse com ele. Aliás, por que o tal Duncan tinha o telefone dela e ele não? Arthur fechou a cara sem perceber, perdido nos seus pensamentos cheios de ciúme.
‘Arthur! Lua chamou estalando os dedos e Arthur olhou pra ela. Percebeu que a fila tinha andando mais alguns passos e que ele continuara parado no mesmo lugar.
‘Foi mal, não vi’ ele disse quando voltou a ficar ao lado da garota ‘Então Duncan te ligou?’ ele acabou soltando a pergunta. Lua pensou um pouco antes de responder, tentando entender porque Arthur tinha interesse nisso.
‘É, ligou’ ela disse ‘Queria sair comigo hoje à noite’
‘Hum, segundo encontro. Parece que o negócio é sério então’ ele disse tentando esconder o desdém que tinha na voz. Ela riu.
‘Ah não, nada a ver. Estamos só saindo juntos, só isso’ disse erguendo os ombros ‘E nem sei se vai passar disso’
‘Por que não?’ ele perguntou interessado no que ela dissera.
‘Bem, eu não sei até quando vou morar aqui na Inglaterra, não quero me envolver demais com alguém pra, quem sabe, ter que terminar tudo na semana seguinte’ ela respondeu meio cabisbaixa. Ele não disse nada e os dois ficaram em silêncio, esperando que a fila andasse mais um pouco.Arthur não gostou da resposta dela porque, se era esse mesmo o motivo de ela não ficar com Duncan, então ela também não ficaria com ele.
‘Já faz um tempinho que o filme começou e eles ainda não voltaram’ Sophia disse em voz baixa ‘Acho melhor eu dar um toque na Lua’ e pegou o celular, mas o aparelho desligou sozinho um segundo depois na sua mão ‘Que ótimo, acabou a bateria’
‘Eu nem trouxe o meu’ Micael disse no mesmo tom de voz que ela ‘Mas, olha, relaxa’ ele olhou pra ela e colocou a mão sobre a sua. Sophia sentiu os pêlos do braço arrepiarem e tentou se manter calma ‘Eles já devem estar voltando, não podem sumir’
‘Eu não me preocupo com o que eles não podem fazer, mas sim com o que eles podem’
‘Bom, quanto a isso eu não posso garantir nada’ ele encolheu os ombros e ela abafou o riso ‘As pessoas podem fazer muitas coisas quando estão sozinhas’
‘Ah claro, tipo o quê?’ ela disse levando na brincadeira.
‘Quer mesmo saber?’ ele sorriu malandro. Sophia viu aonde o garoto queria chegar e sentiu o estômago gelar. Não sabia se estava pronta pra ficar com outro garoto, afinal fazia apenas uma semana que tinha terminado seu namoro com Michael. Ela engoliu em seco.
‘Talvez... mais tarde’ disse arqueando uma sobrancelha, esperando que ele entendesse o recado. Micael encolheu os ombros e voltou a prestar atenção no filme, ainda sorrindo. Afinal, aquele não tinha sido um fora, não por completo.
‘Eu quero uma pipoca grande e... não, não. Uma pipoca média e uma Coca-Cola média também’ o único rapaz que estava na frente de Lua e Arthur na fila parecia bem indeciso quanto ao seu pedido ‘Espera’ ele disse pro atendente, que já não sabia mais o que fazer. Sempre que ia pegar o pedido do rapaz, ele mudava de idéia ‘troca pra uma Coca grande. E me dá também um pacotinho do M&M's. Não, M&M's não, eu quero...’
‘Ô meu querido’ Lua perdeu a paciência e cutucou o rapaz no ombro. Ele se virou pra ela ‘Eu estou a quase meia hora nessa fila e sei que você também, então colabora né! Decide logo as porcarias que você vai querer comer e pede de uma vez, assim todo mundo compra as coisas mais rápido e sai daqui bem feliz e contente, falou?!’
O rapaz ficou olhando pra ela, boquiaberto, durante uns segundos. Quando ela cruzou os braços, começando a se impacientar novamente, ele se virou pro atendente e confirmou o pedido anterior, incluindo o M&M's mesmo. Depois de alguns minutos ele se afastou levando seu pedido e, finalmente, foi a vez de Arthur e Lua.
‘Duas pipocas grandes, com manteiga, e duas Cocas grandes também’ Arthur pediu e se virou pra Lua ‘Você podia ter levado uns tabefes por ter falado daquele jeito com aquele cara, sabia?’
‘Ele não se atreveria a bater numa mulher’ Lua respondeu rolando os olhos ‘e, de qualquer jeito, você me defenderia se ele tentasse encostar um dedo em mim’
‘Quem te garante?’ ele arqueou uma sobrancelha e sorriu, achando graça na suposição dela porque estava certíssima.
‘A maioria dos homens gosta de uma boa briga, ainda mais quando é pra salvar uma dama indefesa de um cara mau’ ela disse de um jeito cômico, o que fez Arthur rir.
‘Bem, não vou dizer que você está completamente errada’ ele se virou pro atendente enquanto a garota ria ‘Certo’ disse depois de pegar o pedido e pagar ‘acho que já podemos voltar pra sala e tentar ver o resto do filme’
‘Hey’ ela pulou na frente dele quando o garoto estava indo pra sala de cinema. Ele parou ‘olha, estava pensando, o que acha de deixar aqueles dois assistirem o filme sozinhos? Aposto que eles nem vão sentir nossa falta’
‘Você é má, Lua’ Arthur balançou a cabeça e eles riram ‘Ok, vamos ficar por aqui, depois inventamos uma desculpa qualquer praqueles dois’ ele concordou se sentindo feliz por dentro porque, além de dar mais tempo pra Micael ficar sozinho com Sophia, ele também estaria se dando mais tempo sozinho com Lua ‘Só que você vai ter que agüentar comer um balde grande de pipoca e tomar toda essa Coca’ ele avisou ‘Eu comprei tudo grande pra dividir entre nós quatro, mas como os outros não vão nem sentir o cheiro da manteiga na pipoca, nós dois vamos ter que detonar tudo sozinhos’
‘Por acaso você está me achando muito magra e quer me engordar um pouco?’ ela perguntou rindo.
‘Você quem sugeriu que ficássemos aqui’ ele encolheu os ombros e riu junto a ela. Como o cinema ficava no shopping da cidade, no andar da praça de alimentação, os dois saíram de lá e sentaram numa mesinha perto da porta. A praça de alimentação não estava muito cheia e uma música ambiente estava tocando.
‘Nós temos mais’ Lua consultou o relógio ‘quase duas horas até o filme terminar. O que vamos fazer?’
‘Achei que tivesse alguma coisa em mente’ Arthur pegou um punhado de pipocas e colocou na boca.
‘Hum, podemos ficar aqui e conversar sobre milhares de coisas, grande parte delas serão futilidades, claro’ ela falava de um jeito engraçado e ele sorria ‘até que fiquemos de saco cheio um do outro. Daí vamos entrar num assunto que gere uma pequena discussão, então começaremos a brigar e...’ ela parou pra pensar em como terminaria aquela fantasia toda. Arthur teve uma idéia marota.
‘Depois de um tempo nos cansaremos de discutir, acabaremos nos beijando e fim’ ele disse na maior cara de pau, sorrindo malandro. Lua sentiu o estômago revirar quando ouviu aquilo e encarou o garoto seriamente por uns segundos. Depois de conseguir organizar seus pensamentos e concluir que aquilo tudo não passava de brincadeira, ela riu.
‘Bom, eu tinha imaginado uma guerra de pipoca e até uma explosão suspeita da praça de alimentação, mas se você prefere imaginar um final mais pacífico’ ela encolheu os ombros e ele gargalhou.
‘É, acho que eu prefiro’
‘Em todo o caso, tudo isso não passa de uma suposição’ ela pegou algumas pipocas ‘Não significa que vá realmente acontecer’
‘Eu não sei se ficaria de saco cheio de você’ ele colocou um canudinho num dos copos de Coca ‘Bem, talvez’ disse em tom de brincadeira.
‘Eu não sei se te beijaria. Talvez’ ela riu e colocou as pipocas na boca.
Arthur mordeu a boca e ficou olhando pro rosto da garota, enquanto ela observava as pessoas que andavam pela praça de alimentação. Ele queria muito acreditar que ela tinha falado sério, mas a risada que ela deu depois não deixava que ele se iludisse.
‘Eu gostei, não é dos melhores, mas é bom’ Micael comentou enquanto seguia Sophia pra fora da sala de cinema.
‘Uh, bem emocionante. Estou tremendo até agora’ Sophia mostrou a mão meio trêmula pra ele, que riu.
‘Pensei que gostasse de filmes de terror’
‘Ah, e eu gosto, muito até. Mas isso não significa que eu não tenha medo’ ela explicou.
‘Então você gosta de sentir medo?’ ele perguntou franzindo a testa.
‘Bem, tem pessoas que se divertem sentindo medo quando estão numa montanha-russa. Eu me divirto sentindo medo numa poltrona de cinema’ ela encolheu os ombros.
‘É, faz sentido’ e os dois riram.
‘Ih, cadê aqueles dois hein?’ Sophia colocou as mãos na cintura, vendo que a prima e Arthur não estavam na fila pra comprar pipoca ‘Eles não voltaram pra dentro da sala e também não estão aqui fora’
‘Vai ver aconteceu alguma coisa, eles não puderam entrar e foram andar pelo shopping, ou sei lá’ Micael disse ‘Vamos ver na praça de alimentação, quem sabe eles estão lá’
Sophia concordou com a cabeça e os dois saíram do cinema. Não precisaram nem procurar muito, logo viram Arthur e Lua sentados numa mesinha próxima. Eles estavam rindo de alguma coisa.
‘Que bonito hein!’ Sophia chegou perto dos dois com os braços cruzados ‘Saem pra comprar pipocas e não voltam mais, ham’
‘E pelo jeito ainda comeram todas as pipocas’ Micael riu olhando dentro de um balde de pipocas, por sinal, vazio.
‘Então, por que não voltaram lá pra sala de cinema?’ Sophia perguntou. Arthur olhou pra Lua, esperando que ela tivesse uma boa desculpa, porque ele mesmo não tinha.
‘É que assim’ Lua, pro alívio de Arthur, começou a tentar se explicar ‘A fila pra comprar pipoca estava bem grande e nós acabamos demorando mais que o esperado, quando conseguimos comprar tudo e fomos voltar pra ver o filme, o tiozinho que estava conferindo as entradas não deixou que a gente voltasse lá pra sala. Então resolvemos ficar aqui fora e esperar por vocês’ ela terminou respirando fundo porque tinha falado tudo rapidamente. Sophia e Micael trocaram olhares, como se avaliassem entre si se o que Lua tinha contado era suficientemente convincente.
‘Certo’ Micael concluiu por fim ‘Tiveram que esperar muito aqui?’
‘Pouco menos de duas horas’ Arthur respondeu esvaziando seu copo de Coca. Lua olhou pra prima.
‘E a senhorita, hein? Por que não me ligou quando o filme começou?’ perguntou séria.
‘Acabou a bateria do meu celular e o Micael não trouxe o dele’ Sophia disse.
‘Bem, acho que já podemos ir embora então’ Lua se levantou. Arthur fez o mesmo.
‘Não querem dar uma passeada pelo shopping?’ Micael sugeriu e olhou no relógio ‘Ainda são onze da noite e eu não estou a fim de voltar pra casa’
‘Oh gente’ Sophia olhou pra Arthur e Lua ‘por favor, vamos ficar. Tem um sapato tão lindo que eu vi numa loja daqui outro dia e eu só estava esperando uma oportunidade pra comprar. Vamos ficar vai, pelo menos pra eu comprar o sapato’
Arthur e Lua concordaram, rindo junto a Micael de como a garota pedia pra que ficassem. Os quatro saíram da praça de alimentação e foram procurar a tal loja onde tinha o sapato que Sophia tanto queria.


















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