Cap. 9
‘Lua! Lua!’ Arthur gritou se ajoelhando ao lado do corpo desmaiado da garota.
As pessoas que estavam mais próximas pararam de dançar ao ouvirem o grito de Arthur e fizeram praticamente uma roda em volta da garota caída, tudo pra poder ver o que estava acontecendo. Sophia abriu espaço entre um casal que estava meio abraçado e tampou a boca com as mãos quando viu sua prima no chão.
‘Deus do céu!’ Duncan exclamou, aparecendo ao lado de Sophia. Ele correu até Lua e agachou do outro lado dela.
‘O que aconteceu?’ Sophia ajoelhou perto da prima e colocou a cabeça dela no seu colo.
‘Ela estava falando comigo e, de repente, caiu. Desmaiou!’ Arthur estava desesperado. Segurava nos pulsos da garota, sentindo sua pulsação fraca e olhando seu rosto branco feito papel. Duncan sacudiu o corpo dela pela barriga.
‘Lua! Acorda, acorda’ ele repetiu ‘Acorda, por favor’
‘Ela não vai acordar assim, seu imbecil’ Arthur disse nervoso. Sophia deu um tapa no braço de Duncan, que parou de sacudir Lua. ‘Você estava com ela, não estava?’ Arthur questionou Duncan ‘Lá perto do bar, durante todo o show’ ele estreitou os olhos ‘O que você fez com ela?’ perguntou rilhando os dentes. Sophia olhou pra Duncan, intrigada. O garoto pareceu um pouco confuso, então arregalou os olhos.
‘Susan! Foi a Susan! Ela praticamente embebedou a Lua, toda hora trazia uma bebida diferente’ ele disse e olhou pra Lua, que continuava imóvel no chão. As pessoas em volta estavam em silêncio, ouvindo a conversa quase gritada dos outros, até a música parecia mais baixa pra que eles pudessem ser ouvidos ‘Isso não deve ter feito bem pra Lua, por isso ela desmaiou’
‘Susan?’ Sophia franziu a testa ‘Susan não é sua ex-namorada, Duncan?’
‘Ela mesma’ ele respondeu.
‘E por que você não a impediu?’ Sophia quase gritou, indignada ‘Você poderia ter feito ela parar! Por que não fez isso?’
‘Eu tentei, mas a Lua não me deixou fazer nada. Ela simplesmente pegava as bebidas e tomava’
‘E o que a Susan queria com você? Achei que vocês tinham terminado!’ Sophia exclamou e então bateu na própria testa ‘Céus, ela deve ter feito isso de propósito. Claro, ela achou que você estava com a Lua, ficou com ciúmes e resolveu fazer alguma coisa pra se vingar. Aquela... aquela...’ ela procurava o xingamento mais “adequado” que pudesse usar pra expressar sua raiva.
‘Caraca, o que aconteceu?’ Arthur, que até então só olhava pra Lua e ouvia os outros dois falarem, escutou uma voz conhecida, então ergueu a cabeça. Micael tinha conseguido abrir espaço entre as pessoas e estava ali perto, com uma expressão de surpresa no rosto.
‘Aquela...’ Sophia ainda tentava encontrar a palavra certa. Micael olhou pra ela e abriu um pouco a boca, mais surpreso do que estava antes ‘Aquela vadia biscateira filha de uma puta!’
‘Melhor tirarmos ela daqui’ Arthur disse, ignorando completamente o que os outros diziam ou poderiam dizer.
‘Vamos pra minha casa’ Sophia pareceu esquecer de Susan por um momento.
‘Não. Eu moro no mesmo prédio que ela, podemos ir pro meu apartamento’ Arthur sugeriu e olhou pra Sophia, que concordou com a cabeça.
‘A bolsa dela está na mesa e a chave do apartamento dela deve estar dentro, mas os pais dela podem estar em casa e eu não acho uma boa idéia deixá-los preocupados’ ela disse passando as mãos pelos cabelos de Lua e olhou pra Arthur. Percebeu que ele estava preocupado e queria ajudar ‘Acho que o melhor é ir pro seu apartamento mesmo, se não for incômodo’
‘Claro que não é’ ele disse simplesmente.
‘Eu vou junto’ Duncan se manifestou.
‘Nem pensar’ Arthur fuzilou o rapaz com os olhos.
‘Você fica aqui’ Sophia apoiou Arthur ‘Isso tudo é culpa da bruaca que é sua ex-namorada e, de certa forma, culpa sua também’
‘Certo, eu fico’ Duncan ficou de pé ‘Fico e mato a Susan’ disse e saiu de perto, procurando Susan por entre as pessoas que estavam ali.
‘Vamos no meu carro’ Arthur tirou as chaves de dentro do bolso e estendeu pra Micael, que continuava parado no mesmo lugar, só observando a cena ‘Você dirige, cara?’
‘Ok’ Micael concordou simplesmente e pegou as chaves, vendo as mãos do amigo tremerem. Sabia que ele devia estar preocupado com Lua, afinal gostava absurdos dela.
‘Vamos logo, pelo amor de Deus’ Sophia pediu.
Arthur pegou Lua no colo e ficou em pé. O corpo dela estava mole e sua cabeça pendeu pra trás. Arthur sentiu os braços continuarem a tremer quando encarou o rosto dela, ainda muito branco; os olhos estavam fechados e a boca meio aberta. Ele engoliu em seco, sentindo a preocupação invadi-lo mais uma vez, e firmou os braços. Sophia se levantou.
‘Vou pegar a bolsa dela e já volto’ disse e saiu.
As pessoas abriram espaço pra que ela corresse até a mesa onde as amigas provavelmente ainda esperavam por ela. Arthur e Micael saíram por esse mesmo espaço, indo em direção a saída do barzinho.
‘Não devemos avisar os caras que estamos indo embora mais cedo?’ Micael perguntou pra Arthur, lembrando dos outros garotos.
‘Eu não vou avisar ninguém, Borges’ Arthur respondeu firme e seriamente, sem hesitar ‘Eu vou levá-la embora daqui’
Micael não disse mais nada e nem pensou duas vezes. Depois poderia ligar pros outros e explicar o que tinha acontecido, por hora era melhor ficar ao lado de Arthur.
Micael trancou a porta do apartamento de Arthur enquanto o amigo deitava Lua no sofá. Sophia achou uma almofada, colocou sob a cabeça da prima e sentou na beirada do sofá. Arthur agachou ao lado da cabeça de Lua, que estava virada pra ele, e tirou uma mecha de cabelo que estava no rosto dela. Sentiu o coração apertar ao encarar o rosto inexpressivo da menina inconsciente.
‘Eu vou ligar pros caras e avisar que viemos pra cá’ Micael disse baixo. Pegou o telefone de Arthur e foi pra cozinha.
‘Ela já deveria ter acordado’ Sophia murmurou passando a mão sobre a de Lua.
‘Já’ Arthur concordou simplesmente, sem desviar o olhar do rosto ainda pálido daquela garota que continuava sendo tão bonita aos seus olhos.
‘Você não acha que... seria possível um...?’
‘Não, espero que não’ Arthur não permitiu que Sophia concluísse a frase quando se deu conta do que ela estava pensando. A idéia de que Lua pudesse ter entrado em coma alcoólico o aterrorizava e ele não queria nem pensar ou citar essa hipótese assustadora.
Eles ficaram em silêncio durante alguns minutos, ouvindo a respiração lenta de Lua e a observando atentamente, esperando que a qualquer minuto ela despertasse. Micael voltou pra sala, colocou o telefone na base e parou ao lado de Sophia, com os braços cruzados.
‘Faz mais de meia hora que ela está assim’ ele comentou do nada. Arthur mexeu com a cabeça. Sophia suspirou.
‘Essa minha prima... sempre me dando sustos’ ela disse num tom entristecido. Arthur e Micael trocaram olhares surpresos.
‘Prima?’ Micael perguntou ‘Você é prima dela?’
‘Sou’ Sophia afirmou calmamente.
‘Beleza é coisa de família’ Micael murmurou pra si mesmo. Sophia olhou pra ele.
‘Disse alguma coisa?’
‘Ah não, nada’ ele negou com a cabeça. A garota deu de ombros e voltou a olhar pra prima.
Arthur tinha apenas trocado aquele olhar com Micael e logo voltara a encarar Lua. Ele sentia o desespero voltando e implorava mentalmente pra que a garota deitada no sofá acordasse logo. Arthur mordeu a boca e passou os dedos levemente pelo rosto dela. Por uma fração milagrosa de segundo, ele teve a impressão de ver a boca de Lua mexer, mas não foi real. Lua continuava imóvel e não dera o mínimo sinal de consciência.
‘Eu não agüento mais!’ Sophia exclamou e ficou em pé ‘Nós temos que fazer alguma coisa’ ela olhou pra prima e pensou um pouco, então lhe ocorreu uma idéia repentina ‘Você tem acetona aqui?’ perguntou pra Arthur, mas foi Micael quem falou.
‘Acetona? Aquele negócio pra tirar esmalte?’ ele franziu a testa. Sophia olhou pra ele ‘Bom, acho que meu amigo não passa esmalte’
‘Ah não, claro que não’ Sophia balançou a cabeça, se sentindo burra ‘Só preciso de alguma coisa que tenha um cheiro forte, tipo vinagre ou... ou álcool’
Arthur não disse nada. Levantou de onde estava e correu até a cozinha. Começou a fuçar nos armários procurando uma das duas coisas que Sophia tinha pedido. Quando voltou correndo pra sala, estava segurando o vinagre que tinha encontrado antes de procurar o álcool nos armários da lavanderia. Sophia tirou o vinagre das mãos dele e o destampou. Então sentou na beirada do sofá de novo e colocou a abertura da garrafa embaixo do nariz da prima. Lua, que respirava tranqüila, inspirou o cheiro forte do líquido e, de repente, apertou os olhos e mexeu a cabeça. Arthur sentiu o coração mais leve quando viu a garota se virar pro encosto do sofá e tampar o rosto, se escondendo da luz da sala.
‘Lua?’ Sophia chamou, tampando o vinagre e o colocando no chão ao lado do sofá ‘Lua?’ repetiu mais alto.
‘Cala a boca, Sophia’ Lua resmungou ‘Minha cabeça está doendo’
‘Ninguém mandou beber demais. E eu bem que disse pra você comer alguma coisa antes de sair de casa’ Sophia disse, mas não estava brava. Parecia aliviada e tinha até um ar risonho na voz.
Lua virou de barriga pra cima e tirou as mãos do rosto. Sentiu a luz incomodar um pouco, mas não fechou os olhos. Ela olhou pra prima e depois pro lado, franzindo testa ao ver um garoto que não lhe era estranho, mas não que sabia o nome, e Arthur Aguiar, parados olhando pra ela. Arthur sorriu.
‘Como está?’ ele perguntou.
‘Onde estou, essa é a questão’ Lua disse se sentindo confusa.
‘Você está no meu apartamento’ ele disse ‘Lembra do que aconteceu no Gas, depois do show?’
‘Eu fui falar com você...’ ela começou, fazendo esforço pra pensar e sentindo pontadas na cabeça por isso ‘Então a Sophia me chamou e eu me segurei em você porque estava tonta... daí ficou tudo escuro’
‘Da próxima vez eu não vou mais deixar você ir buscar bebidas em bar nenhum’ Sophia disse ‘E muito menos cair nas armadilhas daquela Susan’
‘Essa Susan... ela ficava empurrando as bebidas pra cima de mim e me fazendo tomar tudo aquilo’ Lua coçou a cabeça e sentou no sofá ‘Acho que eu experimentei tudo que tinha naquele bar’
‘Você bebeu Martini?’ Micael se manifestou pela primeira vez desde que ela acordara ‘Cara, eu bebi da outra vez e achei meio...’ ele parou de falar quando Sophia e Arthur olharam feio pra ele. Lua riu, mas não muito alto porque fazia a cabeça doer mais ainda.
‘Quem é você?’ ela perguntou apontando pra ele.
‘Micael Borges. Eu diria que é uma satisfação conhecê-la, mas nessas condições...’ ele encolheu os ombros. Lua sorriu e olhou pra prima.
‘Tudo a ver com Billy, não acha Sophia?’ ela riu de novo quando viu a prima corar e lhe lançar um olhar do tipo “cala a boca”. Micael e Arthur se entreolharam sem entender nada. Sophia olhou pra Arthur.
‘Certo, Micael Borges e...?’ ela arqueou as sobrancelhas.
‘Arthur Aguiar’ o próprio respondeu simplesmente.
‘Meus salvadores’ Lua brincou ‘Eu só queria entender porque desmaiei’
‘Você misturou muita bebida diferente’ Arthur explicou ‘Isso nunca dá muito certo. E, bom, acho que você não está acostumada a beber tanto assim’
‘Desde os quinze anos eu não tomo um porre’ Lua riu ‘Provavelmente porque não gostei de ficar de ressaca depois’ ela deu de ombros, indiferente.
‘Você só precisa comer alguma coisa e dormir bastante’ Sophia levantou ‘Vamos, melhor você ir pra casa’
‘Se quiser eu faço alguma coisa pra comer’ Arthur se prontificou, querendo que a garota ficasse mais tempo ali até ele ter total certeza de que ela estava bem mesmo.
‘Ah, não precisa. Eu tenho mesmo que ir pra casa e acho que se comer vou acabar vomitando. Sabe, não quero sujar a sua casa’ Lua respondeu humildemente e ficou em pé. Sentiu-se tonta, mas conseguiu se manter firme. Arthur encolheu os ombros.
‘Tipo, eu limpei ontem, mas não faz mal’ disse e todos acabaram rindo.
‘Valeu Aguiar, mas eu preciso dormir’ Lua passou a mão na testa, onde as pontadas de dor eram mais agudas ‘Obrigada pela ajuda meninos, estou devendo essa a vocês’
‘Que isso, não foi nada’ Micael balançou a cabeça.
‘Lua tem razão, estamos devendo essa. Realmente, obrigada’ Sophia sorriu. Micael ficou vermelho e sentiu como se a língua tivesse enrolado dentro da boca, porque não conseguia dizer mais nada.
‘Será que você pode...?’ Lua olhou pra Arthur e apontou pra porta do apartamento.
‘Ah claro’ ele andou rapidamente até a porta e a abriu.
‘Boa noite’ Sophia acenou pra Micael, que apenas ergueu a mão, e saiu do apartamento.
‘Até mais, Aguiar’ Lua sorriu parando na frente de Arthur, que segurava a porta aberta ‘E, olha, o show de vocês foi bom de verdade. Eu não disse aquilo só porque estava bêbada ok?!’ ela riu.
‘Fica bem’ Arthur disse simplesmente e sorriu. Lua concordou com a cabeça e foi atrás de Sophia, que procurava as chaves do apartamento da prima na bolsa dela.
Arthur fechou a porta, mas antes conseguiu ouvir Lua rindo e Sophia dizer algo como ‘... bêbada, não vai abrir essa porta nunca. E se você vomitar na minha cara eu te mato’. Ele olhou pra Micael, que estava feito uma estátua no mesmo lugar.
‘Doideira’ Micael concluiu, balançando a cabeça.
‘Surreal’ Arthur sentou no braço do sofá e colocou no colo a almofada onde, minutos antes, a cabeça de Lua estava deitada ‘Espero que ela melhore’
‘Ela vai melhorar’ Micael disse ‘Hey dude, to caindo fora também. Se cuida’ ele deu um tapinha no ombro de Arthur antes de sair do apartamento como as garotas tinham feito.
Arthur deitou no sofá e enfiou o rosto na almofada. Pôde sentir o perfume de Lua misturado com um leve cheiro de bebida impregnado na almofada. Ele sorriu automaticamente.


















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