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11 de abril de 2012

"Forbidden"

 Cap. 2

Arthur estacionou o carro perto dos portões e entrou no colégio. Não demorou muito pra encontrar os amigos sentados na mureta do pátio cheio e foi até eles.
‘E aí, caras? Tudo certo?’ perguntou encostando-se a mureta.
‘Tudo mais que certo, Aguiar’ Chay respondeu com o olhar perdido num ponto do pátio. Arthur reparou que Rodrigo e Micael também estavam olhando pro mesmo lugar.
‘Tá tudo certo mesmo?’ ele franziu a testa, estranhando quando os amigos sorriram.
‘Claro, cara. Tudo... lindo’ Rodrigo falava de um jeito meio sonhador e Arthur resolveu olhar pro mesmo lugar pra onde os amigos olhavam.
O garoto entendeu o porquê daquele sorriso imbecil estampado na cara dos amigos assim que olhou pra uma mesinha no pátio. A garota do prédio estava lá, sentada na mesinha, conversando com uma outra garota, que estava de costas pra Arthur e ele não conseguiu reconhecer quem era. Mas ele não deu a mínima importância pra isso, a única coisa que lhe importava era aquela garota sentada na mesinha. Aquela garota que estava com uma calça bailarina, tênis e camiseta branca, que sorria e passava as mãos pelos cabelos, que segurava uma pasta e arrumava as alças da mochila nas costas. Ela parecia muito diferente das outras garotas no pátio, que usavam saia colegial, blusinha branca e salto alto, mas talvez isso só colaborasse pra sua beleza. Ela tinha estilo próprio, um pouco menos feminino, mas próprio e isso a destacava das outras.
‘Eu disse que ela era linda’ Micael comentou leviano, cortando os pensamentos de Arthur e dos outros.
‘Até parece um...’ Rodrigo começou. Arthur se virou pros amigos e sentiu uma estranha formigação nos punhos.
‘Será que dá pra parar de babar nela?’ ele perguntou grosseiro.
‘O que é bonito é pra ser apreciado’ Chay encolheu os ombros.
‘Não liguem, isso é ciúmes’ Micael disse e Arthur fez cara feia pra ele.
‘Não estou com ciúmes, só acho que vocês podiam ser mais discretos’ disse querendo que os amigos parassem de olhar pra garota o mais rápido possível.
‘Vai dizer isso pros outros’ Chay apontou com a cabeça pra frente e Arthur se virou pra olhar.
Ele cerrou os olhos quando viu a maior parte dos garotos que estavam no pátio olhando a garota na mesinha. Ela parecia ser o centro das atenções naquela segunda-feira e, talvez, não deixasse de ser o centro das atenções por muito tempo. É claro que o fato de ser nova no colégio contava muito pra isso, mas Arthur teve a sensação de que a beleza dela contava mais e isso não o deixou muito contente. Não estava gostando de toda aquela... Concorrência.
‘Hunf’ ele apenas bufou, sem se dar conta do tipo de pensamento que teve.
‘... Anjo’ Rodrigo por fim concluiu a frase, perdido nas palavras.
‘Patético’ Arthur resmungou baixo. Micael não ouviu, mas percebeu que o amigo não estava muito bem humorado com tudo aquilo e resolveu colaborar com ele.
‘Vamos parar de admirar a garota e resolver assuntos mais importantes’ disse e os outros olharam pra ele ‘Quando vamos marcar o próximo ensaio?’
‘Onde vamos ensaiar, essa é a pergunta’ Rodrigo corrigiu ‘A garagem da minha casa não está mais disponível, meu pai comprou carro novo’
Arthur viu que os amigos finalmente estavam entretidos com outra coisa e ficou um pouco mais satisfeito com isso. Ele deu mais uma olhada na garota antes de prestar real atenção no que os amigos falavam. Agora ela estava balançando a cabeça e rindo de alguma coisa que a outra devia ter lhe falado. Ele não resistiu e sorriu.
‘Tudo bem pra você, Arthur?’ a voz de Chay perguntou, parecendo muito longe dali.
‘Ãh?’ Arthur virou pros amigos com cara de desentendido ‘Desculpem, não prestei atenção’
Micael abafou uma risada por saber em quê ou, na verdade, em quem o amigo estava prestando atenção, e os outros dois apenas balançaram a cabeça.

‘Não estou brincando, Lua. Isso é sério, acho que meu namorado é gay’ Sophia repetiu.
‘Por que... por que acha isso?’ Lua perguntou entre risos.
‘Não sei, ele olha de um jeito muito estranho pros meus amigos e até pros amigos dele! Eu nem ligaria se fosse assim com as mulheres, mas com homens?! Ah, pra mim isso só significa uma coisa’ Sophia balançou a cabeça.
‘Isso deve ser implicância sua’
‘Que nada, quando eu te apresentar ele, você vai ver só. Michael é gay, estou te falando’
‘Se você está tão convicta disso, por que não separa dele logo?’ Lua perguntou mais séria, encarando a prima, que encolheu os ombros.
‘Eu não sei. Já tentei várias vezes, sem brincadeira, mas ele sempre vem com aquele jeitinho todo meigo...’ disse com doçura.
‘É só você pensar que é jeitinho de gay e pronto’ Lua riu.
‘Ewww!’ Sophia fez careta e fingiu sentir calafrios ‘Toda hora eu tento tirar isso da minha cabeça, mas não dá. Toda vez que eu estou perto de algum garoto e ele está comigo, eu fico reparando no jeito que ele olha pro outro garoto e parece tão... tão...’
‘Gay’ Lua concluiu pela prima e riu mais alto.
‘Nem me fale’ Sophia suspirou e abanou a mão ‘Mas deixa isso pra lá por enquanto. Me conta mais de você’
‘Não tem mais nada pra contar’ ela ergueu os ombros. Tinha chegado mais cedo no colégio a pedido da prima pra que elas pudessem matar as saudades e agora já devia fazer uma meia hora que as duas estavam ali no pátio, conversando.
‘Claro que tem! Você nem me contou dos namorados’ Sophia disse curiosa e cutucou a prima na cintura.
‘Eu não estou namorando, se é isso que quer saber. Você sabe que eu vivo me mudando e agüentar um namoro a distância é que eu não vou’ Lua disse. Uma vez já tentara fazer isso, mas o namoro não durou mais de um mês depois que ela se mudou e aquela era uma experiência que ela não queria repetir mais, se fosse possível.
‘Essas viagens dos seus pais acabam com a sua vida social’ Sophia se sentiu triste pela prima. Devia ser péssimo ficar se mudando toda hora.
‘Eu nem sei mais o que é ter uma vida social decente, então nem sinto falta disso’ ela mentiu. Claro que sentia falta de ter um grupo de amigos com quem pudesse estar sempre que quisesse, como quando era pequena e morava no Brasil. Lá era tão bom, as crianças com quem ela costumava brincar moravam perto da sua casa e era ótimo passar tardes inteiras na rua.
Até os dez anos, Lua pudera aproveitar a sua infância, mas depois disso perdera o contato com os amigos antigos e crescera se mudando constantemente, perdendo também a noção do que era ter amigos de verdade. O máximo que ela conseguira nos outros países por onde passara era um grupinho restrito que servia apenas pra passar o intervalo das aulas nos colégios. Até então vivera parte da sua adolescência curtindo noites inteiras em casa ou saindo sozinha às vezes, mas nunca aproveitara realmente.
‘Mas agora você vai ver, Lua. Eu vou te apresentar pras minhas amigas e a gente não vai nos desgrudar mais’ Sophia disse, tentando reanimar a prima que parecera cabisbaixa por um instante.
‘Claro... daí, depois de uns três meses, eu me mudo e então nós não nos veremos mais’ Lua sorriu com o canto da boca ao ver a prima fazer cara de quem se compadece ‘Obrigada por tentar, Sophia. Mesmo’
‘Eu não vou só tentar, prima. Vou conseguir, ouve o que estou te dizendo’ Sophia piscou pra outra e a abraçou.
O sinal estridente do colégio tocou, anunciando o começo das aulas e fazendo as primas se soltarem do abraço.
‘Em que sala você está?’ Sophia perguntou empolgada. Também estava no terceiro ano e torcia pra que a prima tivesse caído na mesma sala que ela.
‘3° alguma coisa... 3°A, eu acho’ Lua respondeu e a prima a pegou pela mão, sorrindo.
‘É a minha! Vem, eu te mostro onde fica’ disse e as duas saíram apressadas pelo pátio.
‘Dá pra ir mais devagar?’ Lua perguntou rindo, ao ver que Sophia quase corria de tão empolgada que estava ‘Você vai acabar baten...’
Ela nem terminou de falar. O que ela previra acabou acontecendo: Sophia, apressada do jeito que estava, acabou esbarrando em um garoto e o fez derrubar os cadernos e livros que segurava pro amigo que estava abaixado, amarrando os tênis.
‘Foi mal’ Sophia se virou pro garoto e levantou uma mão, em sinal de quem pede desculpas.
‘Sem problemas’ Micael disse dando um meio sorriso e Arthur levantou na hora em que ouviu o amigo dizer algo.
Sophia sorriu e voltou a olhar pra frente, puxando a prima mais uma vez, sem dar tempo pra que ela olhasse direito pros garotos. Também não deu tempo pra que Arthur apreciasse a beleza da garota que foi puxada pela outra, a garota que chamava a atenção de todos, a garota do seu prédio.
‘Você viu isso?’ Micael perguntou pra Arthur, que estava com o olhar perdido no lugar onde as garotas tinham sumido.
‘Vi’ ele disse simplesmente.
‘Como eu não reconheci que a garota que estava falando com a sua deusa era a Sophia?’ Micael questionou mais a si mesmo do que ao amigo, vendo que o outro não prestava muita atenção no que acontecia ao seu redor ‘Sophia Abraao... minha deusa conhece a sua’ ele disse e sorriu bobamente.
Micael gostava de Sophia desde a primeira vez que a vira, ainda quando os dois não tinham mais que onze anos de idade. Fora no segundo dia de aula da quinta série que ele vira aquela garotinha extrovertida, capaz de conquistar qualquer um com apenas um simples sorriso. Ela nunca dera realmente importância pra ele; Micael desconfiava até que ela não sabia nem mesmo seu nome, isso porque já haviam estudado durante três anos na mesma sala, mas mesmo assim ele nutria seu sentimento e alguma esperança também. Então, no primeiro ano do colegial, Micael viu Sophia beijando um garoto perto dos portões do colégio. Os amigos precisaram segura-lo pra que ele não avançasse no garoto. Semanas depois, Micael descobriu que Sophia estava namorando o tal rapaz, e chegou até mesmo a descobrir o nome do seu concorrente: era Michael Ross, um garoto de 20 anos que cursava Medicina numa faculdade pequena da cidade. Mas, apesar desse namoro de Sophia, Micael nunca deixou de gostar dela e nem desistiu, sempre achando que um dia ou outro teria sua chance de conquistá-la.
‘Hey caras, o que estão esperando?’ Rodrigo chegou perto dos amigos e os fez acordar de seus pensamentos.
‘O sinal tocou faz uma era. Melhor irmos pra classe se não quisermos perder a primeira aula’ Chay disse.
Micael pegou os cadernos e livros que ainda estavam no chão, os entregou pra Arthur e os quatro garotos seguiram pra sala do 3°D. Quando entrou na sala, Arthur correu o olhar pelo lugar, procurando sua “deusa”, como Micael dizia. Mas, com tristeza, Arthur constatou que a garota nova não estava lá. Então ele apenas foi se sentar com os amigos, naturalmente nas carteiras do fundo, tendo a certeza de que não prestaria muita atenção na aula que estava prestes a começar.

‘Achei que suas amigas estariam aqui’ Lua murmurou pra Sophia, que estava sentada ao seu lado no fundo da sala. A professora já tinha começado a aula e as duas tinham que falar baixo se quisessem conversar.
‘Ah não, elas acabaram ficando na outra sala esse ano. Estão no 3°D’ a prima respondeu no mesmo tom de voz ‘Sabe aquele garoto em quem eu esbarrei agora pouco?’
‘Yep. Que tem ele?’
‘Está no 3°D também, ele e uns amigos dele’
‘Ele me pareceu bem legal, e é bonitinho também’ Lua comentou. Sophia lhe lançou um olhar rápido antes de voltar a olhar pra professora na frente da sala.
‘Você achou mesmo?’ perguntou.
‘Achei. A propósito, qual o nome dele?’
‘Não faço nem idéia, mas acho é Billy, Bob... sei lá’ Sophia deu de ombros.
‘Vai me dizer que você nunca conversou com ele?’ Lua arqueou uma sobrancelha, olhando de esguelha pra prima.
‘Não. Estudo com ele desde a quinta série, mas acho que nunca falei com ele nada além do essencial’ Sophia disse pensativa.
‘E o que seria o essencial?’
‘Foi mal’ ela respondeu simplesmente e Lua teve que abafar uma risada.

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