Capítulo 3
Um Dia No Parque
Acordei cedo – o que era algo bem raro em dias de folga. Arrumei-me depressa e tomei uma xícara de café. Não sabia se deveria tocar sua campainha, se eu pareceria muito ansioso por nosso primeiro passei juntos, e a sós. Devido a minha preocupação de não parecer tão ansioso quanto estava, sentei-me na poltrona e liguei a tevê. Nada daquilo me prendia a atenção. Vinte minutos passaram, sim, não foi a eternidade, mas pareceu. Não agüentando mais a agonia interminável provinda da espera, levantei-me num salto e em outro a porta de meu apartamento já estava fechada e meu dedo indicador segurava insistentemente a campainha da porta ao lado – como geralmente ela fazia com a minha.- Calma! – Falou abrindo a porta. Usava um vestido leve, de estampa suave e agradável aos olhos. Seus cabelos estavam soltos, e com um brilho intenso, não um que me doesse a vista, mas intenso, na medida perfeita. Mas logo tive que recobrar os sentidos.
- É para você sentir o gosto de ficar do outro lado da porta. Viu como é irritante alguém segurando sua campainha?
- Irritante é você. – Falou rindo.
- Só com quem eu gosto. – Retruquei. – Enfim, para onde vamos hoje?
- Para o parque! – Falou sorridente.
- Para o PARQUE? – Perguntei incrédulo. Adeus meus planos de tentativas bem sucedidas no escurinho do cinema.
- Sim! Faremos um piquenique no parque! – Falou e foi buscar a cesta dentro de casa.
- Legal. – Falei por fim, ainda um pouco incrédulo.
Pegamos um táxi e fomos até o parque. O sol estava bom, não tão quente e não tão sumido. O vento ajudava a manter a temperatura estável. Andávamos pelo parque como um casal, observando vários outro casais e crianças brincando com outras. Era uma cena relaxante, acabei por admitir a mim mesmo que aquilo era até mais confortável que um cinema. Queria acreditar que não era devido a meus últimos meses de trabalho intensivo. Sim, a única maneira de convencer meu chefe a não me demitir, depois de ter faltado o trabalho no dia seguinte – aquele o qual eu passei a tarde jogando cartas com a Letícia -, foi passar a me empenhar como um funcionário bastante assíduo. Creio que o Sr. Clóvis saiu ganhando, já que trocamos um dia por três meses.
Sentamos em um local arejado, embaixo de uma das tantas árvores ali existentes, forramos a tal toalhinha xadrez e arrumamos as comidas por ali mesmo.
- Então, como está sendo agir como um funcionário sério? – Perguntou rindo.
- Vai bem, obrigado. – Falei a olhando de lado.
- Desculpe. – Falou ainda rindo.
- Pelo o que?
- Você só precisou fazer isso porque passou a tarde comigo, esqueceu de ir trabalhar...
- Já falei, não tem problema, foi bem divertido! – Falei sorrindo. – E veja o lado positivo, conseguimos terminar sua reportagem a tempo! E ficou muito boa! Até comprei a revista!
- Eu sei. – Disse rindo. – Obrigada, mesmo. – olhou-me docilmente e pude sentir o calor de sua mão sobre a minha. Inicialmente achei que estava sonhando, mas a sensação era bastante real para ser uma ilusão.
- Tudo bem... – Falei sem jeito. Nem parecia eu mesmo.
- Então, come essa maçã, está ótima! – Falou cortando todo o clima de romance ali existente e enfiando uma imensa maçã em minha boca. O que eu podia fazer além de obedecê-la? Nada.
- Está realmente gostosa... – Falei com a boca cheia.
- Você é tão educado... – Falou com um olhar reprovador.
- Sou sim – Continuei, e agora exagerando na falta de educação, admito – Você não quer um pouco? – Perguntei mostrando o bolo dentro de minha boca.
- Eca! Que nojo! Claro que não! – Fazia movimentos engraçados com as mãos, se afastando de mim. Então nós dois começamos a rir. Bem, na hora da risada eu fechei a boca, obviamente.
Ficamos boa parte do tempo ali, sentados, conversando, sentindo a brisa quente raspar as células de nossa pele. O aroma da barraquinha de pipoca ali perto nos fazia querer comprá-las, mas a preguiça nos mantinha sentados – quase deitados – naquele pano xadrez. Por fim deitamos e ficamos nos encarando. Podia ver em seus olhos a curiosidade que tinha sobre mim, e esperava que ela não conseguisse ver o mesmo nos meus.
- E então? – Perguntou.
- E então o que?
- Você trabalha a quanto tempo naquela agência?
- Faz três anos apenas... E você?
- Faz quatro anos. – Disse sorrindo.
- Quantos anos...
- Não se pergunta a idade de uma mulher. – Disse parecendo adivinhar meus pensamentos.
- Desculpe! – Disse rindo. – Eu tenho vinte e dois.
- Sério? – Disse apoiando-se em um dos cotovelos.
- Sim, por que?
- Que criança... – Falou um pouco pensativa.
- Por que? – Perguntei no lugar de pedir insistentemente que me revelasse sua idade.
- Tudo bem, eu digo. Tenho vinte e quatro anos.
- Que velha! – Disse sem pensar muito.
- Velha não, você que é criança! – Disse rindo. – Mas... você começou a trabalhar com quantos anos? – Perguntou um pouco confusa.
- dezenove não parece óbvio?
- Nossa! Eu comecei aos dezoito. Quer dizer, trabalhei vendendo revista antes disso, mas aí não conta, foi na loja de minha tia.
- Então você ainda cursa a faculdade?
- Não, já terminei. Você deve estar perto de terminar a sua, certo?
- Já terminei.
- Como?
- Entrei aos dezesseis anos. Eu sei... Agora você se impressionou com minha inteligência. – Falei boçal. Adorava ver a expressão de “nojinho” em sua face.
- Não acredito que você só tenha vinte e três! Sua cara é de mais velho!
- Obrigado... Adoro esse tipo de elogio – Disse irônico.
- Desculpe, mas é verdade. – Disse rindo.
- Obrigado novamente. – Falei sério e depois não consegui segurar a risada. É, eu estava rindo, e não era uma risada sarcástica nem irônica, aquilo fora um grande feito.
Passamos mais um tempo conversando, e tentando desvendar os mistérios mais simples um do outro. A tarde passou rápido, e assim que a noite começou a dar seus primeiros sinais de vida nós recolhemos as coisas. Arrisquei convidar-lhe para correr um pouco, imitando outros tantos que já corriam, mas ao nos vermos com uma cesta em mãos, o convite teve de ser adiado. Pelo menos mais um desculpa para outro dia no parque. Como o clima estava bom, com um vento refrescante, decidimos ir caminhando até não agüentarmos mais e só então pegar um táxi.
- Hoje o dia foi divertido. – Disse olhando-me sorridente.
- Foi sim. Pena que amanhã a realidade volta, e teremos mais e mais trabalhos. – Falei olhando para ela.
- Nós podemos repetir isso mais vezes... – Disse sem conseguir me encarar, apenas olhando para o céu.
- Podemos. Eu gostaria bastante. – Disse e então senti sua mão procurar a minha. Segurei firme. Sentimentos estranhos em envolviam, sentimentos com os quais eu nunca tivera contato antes. Não sabia como agir. Queria beijá-la, mas tinha medo de que um beijo pudesse estragar tudo.
- Lua? – Perguntei ávido.
- Oi? – Perguntou virando-se para mim. Eu não pude me conter. Puxei-a para mim e a beijei. Ela retribuiu, apesar de manter o corpo preso como estátua no chão. Apenas seus lábios se moviam, mas se me era suficiente.
- Desculpe. – Disse separando-nos.
- Erm... Precisamos voltar para casa. – Disse ruborizando.
- Verdade.
Pegamos um táxi e o clima lá dentro estava um pouco estranho, mas conseguimos chegar em casa ainda conversando. Cada um entrou em seu apartamento, e admito, cruzei os dedos para que a chave dela quebrasse novamente, mas não aconteceu.



















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