Capítulo 1 - Rotina
Estava atrasado para o trabalho. O Sr. Clovis provavelmente descontaria de meu salário, novamente. Estendi a mão para que o motorista do ônibus parasse, mas de nada adiantou, ele me olhou com um sorriso sínico que dizia “você não está na parada, perdeu garoto.” Enquanto eu o respondia com um olhar sério e um gesto que conseguia, talvez, exprimir tudo que sentia naquele momento.Sentei em minha cadeira e liguei o computador, enquanto todos no escritório já estavam na maior correria. Tinham dois projetos, um mais simples e outro que era crucial para o Sr. Clovis que eu terminasse hoje. Passei as mãos em meus cabelos, num ato de tentar dissipar toda aquela agonia que me consumia.
- Trinta minutos atrasado. – Falou o Sr. Clovis “surgindo” atrás de mim.
- O trânsito estava pior hoje...
- O trânsito, sua mãe, o cachorro da vizinha, o carro que lhe melou de lama! Já está pensando na próxima desculpa? – Perguntou sarcástico.
- Entregarei o projeto hoje. – Respondi sorrindo simpático, enquanto a resposta que repetia-se em minha mente era apenas “Sim, terei uma desculpa melhor quando comer sua mulher”. Mas eu precisava daquele trabalho, e como precisava.
Meus pais moravam numa cidade muito distante da capital. Uma cidade onde as pessoas não tinham grandes planos de vida além de casar e ter filhos, trabalhar na venda ou qualquer outro cargo público que só precisava de vagas quando algum dos velhos morria. Eu não queria aquilo para mim, não mesmo. Então decidi tentar a vida na capital, na metrópole. Mas mesmo tendo um diploma, já diria o velho faxineiro do prédio que moro: “Na cidade grande é assim, cão comendo cão, e quem não tem cão, caça com rato, ou mata o parceiro para sobreviver”. Sábias frases de um velho zelador.
Quinze minutos para as dez da noite. Levantei-me de minha cadeira, com os olhos cansados, sentindo um peso em minhas costas, um quadrado sendo tirado aos poucos de meus glúteos, e um aroma inebriante de cafeína que percorria não só minhas narinas, mas minhas papilas gustativas. Entrei na sala do Sr. Clovis sem me preocupar em bater na porta. Lá estava ele se agarrando com a secretária, traindo sua mulher pela milésima vez.
- Aqui está! – Falei jogando o rolo de papéis em cima de sua mesa.
- Espero que tenha ficado bom! – Falou num tom de autoridade que fazia a ingênua secretária lhe achar o cara mais importante do mundo. Fala sério, aquilo me enojava.
- Já falei, se não fosse bom, não estaria trabalhando aqui.
- Vá para casa rapaz, você está com sono, mal sabe o que está falando! – Falou rindo de minha cara.
- Amanhã dormirei até mais tarde, só venho trabalhar depois do almoço.
- Quem pensa que és? – Falou rindo de minha cara.
- Vou visitar minha mãe, a senhora dona Carminha, conhece? – Sim, era o nome da esposa dele. E não, ela não era minha mãe, até porque se fosse, ele não estaria vivo numa hora dessas.
- Entendo... Esteja aqui o mais rápido possível, no horário da tarde. – Falou finalmente e acenou para que eu saísse. O pai de Dona Carminha era o dono da empresa de Marketing. O Fato do casamento durar tanto não era amor por parte do Sr. Clóvis, mas sim puro interesse. O problema, ou solução, é que ele sabia encenar, fingir, muito bem.



















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